O balé de Silvia Machado
Durante vinte anos, a paulista Silvia Machado, de São Carlos, hoje com “quase” 49, viveu de dançar. Bailarina tardia, começou aos treze e perseverou até se tornar parte do corpo de balé do Teatro Municipal. Uma lesão, porém, tirou-a do palco por alguns meses. Ofereceu, por outro lado, uma compensação.

Silvia já fazia fotos por diversão e, impedida de dançar, se apoiou no antigo hobby. E se saiu bem no árido ambiente fotográfico de meias-luzes e movimento de corpos. “Voltei a dançar um tempo depois, mas sempre que eu estava fora de cena, estava com a câmera nas mãos”, afirma. Até que não sentiu mais vontade de dançar. Ou melhor, sua dança ficou condicionada ao pulsar da dança dos outros. Silvia Machado tornou-se fotógrafa oficial da companhia a qual pertenceu. Atualmente, trabalha para diversas companhias, atores e bailarinos – além de atuar em outras áreas da fotografia e desenvolver seus projetos pessoais. Acompanhe nesta entrevista a “metamorfose” de Silvia Machado:
Como foi sua trajetória como bailarina?
Comecei meio tarde, segundo os padrões, com quase treze anos. Foi amor à primeira “esticada de pé” (risos). Saí da primeira aula dizendo que iria ser bailarina. Meu pai, que era professor de educação física e fisioterapeuta, era contra. Fez de tudo para que eu desistisse. Minha mãe, pianista, me apoiou incondicionalmente, mesmo às avessas com meu pai. Minha professora foi minha protetora o tempo todo. Ela dizia que, se eu queria dançar, tinha que correr atrás do tempo e entender do que eu estava falando. Colocou-me, então, para fazer aulas com turmas de baby class (de três e quatro anos de idade) até o avançado. Eu tinha que aprender a nomenclatura, a didática para crianças e a base da dança, para poder dar aulas. Eu comia e dormia balé, todos os dias. Foi uma luta dura, comecei a ensinar aos quinze anos para poder pagar os figurinos de apresentações de final de ano e poder continuar a fazer todas as aulas que queria. Minha mãe economizava o ano inteiro das suas aulas de piano para me ajudar e minha professora de balé pagava outra parte das roupas, considerando que eu acabava dançando quase tudo – e eram muitos figurinos a pagar. Com o tempo, meu pai foi se acostumando com a ideia. Entre idas e vindas, acabei vindo definitivamente para São Paulo em 1985, a convite do Ballet Ópera Paulista, uma companhia que durou muito pouco, mas fez muito sucesso na época. Eles tinham uma turnê para Paris e precisavam de uma bailarina com urgência. Ligaram-me em São Carlos. Larguei tudo, inclusive a faculdade, e vim embora. Em 1989, prestei audição no Balé da Cidade de São Paulo – corpo estável do Teatro Municipal de São Paulo – e lá fiquei até o ano de 2009.
Li no seu site que você começou na fotografia quando se viu forçada a parar de dançar por um tempo. Quando foi isso e por que exatamente você escolheu a fotografia?
Na verdade, eu não escolhi a fotografia, acho que ela me escolheu (risos). Sempre amei fotografar, sempre gostei de procurar olhar as coisas de maneiras diferentes. Depois das turnês, todos ficavam esperando as minhas fotos. Era um hobby, tinha uma Olympus automática e com ela fazia minha diversão. Então, em 2001, tive uma lesão que me tirou dos palcos por quase oito meses. Um amigo, me vendo sentada na plateia enquanto a companhia dançava, me ofereceu a Mavica que ele tinha acabado de comprar, para que eu tentasse fotografar a dança. Eu achei que aquilo não iria dar certo – todos os meus amigos e conhecidos fotógrafos sempre disseram que era muito difícil fotografar dança – mas eu aceitei o desafio e acho que não me saí tão mal. Apaixonei-me pela fotografia. E nunca mais consegui parar.
E quando foi que você se viu pronta e disposta a se tornar profissional?
Nunca! Parece que as coisas foram acontecendo. Comecei a fotografar o Balé da Cidade de São Paulo enquanto estava machucada, e nessa época veio ao Brasil, para a companhia, um coreógrafo importantíssimo no cenário mundial da dança. Todos os meios de comunicação nos procuravam pedindo fotos. E a companhia começou a usar as minhas imagens, porque todos gostavam muito. E tivemos muitas publicações. O que antes era apenas uma chamada, no jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, passou a ser uma matéria com fotos. E assim também no jornal O Estado de S. Paulo e outros jornais. Eles pediam fotos, e nós as tínhamos. Nunca mais parei de fotografar. Voltei a dançar um tempo depois, mas sempre que eu estava fora de cena, estava com a câmera nas mãos. E cada vez mais envolvida. Depois veio minha segunda gravidez e de novo fiquei fora de cena. Nessa época, o Balé da Cidade lançou um livro comemorativo dos 35 anos de companhia. Fiz minha primeira exposição – improvisada, é verdade – no saguão do salão nobre do Teatro Municipal. Ela se chamou O Olhar de Dentro, nome sugerido pela própria direção da companhia. Quando voltei da gravidez, fui convidada para continuar como fotógrafa do Balé da Cidade, já que, então, as fotos já circulavam em todas as matérias de jornais e revistas, como Bravo, Veja etc. Aceitei!
Que paralelos você traça entre a dança e a fotografia? Em que pontos essas duas artes se tocam, em sua opinião?
Puxa, não é muito fácil responder a essa questão… Alguns diriam que a dança é movimento puro e a fotografia é o congelamento da imagem (já ouvi muito isso…). Não gosto dessa definição. Para mim, a fotografia é sempre movimento se ela vem carregada de emoção. A emoção não é estática, nunca. As memórias não são estáticas, os sentimentos não são. Quando olhamos para uma foto antiga e nosso coração bate diferente, é porque aquela imagem está se movendo no tempo, está movendo memórias e sensações. Talvez por eu ter dançado tantos anos, e o que sempre me moveu na dança foi a emoção, eu não consigo ver a fotografia de dança como um movimento congelado. Tudo o que antecede um movimento é a intenção do artista, a respiração, o sentimento do movimento. É esse sentimento que faz uma foto ser diferente de outra. Eu gosto de entrar no sentimento do bailarino, de sentir junto com ele, de saltar junto com ele, de mover meus braços junto com ele, de olhar o outro junto com ele. As fotos que mais gosto são essas, simples, que trazem esses sentimentos escondidos em algum pixel qualquer.
“Quando olhamos para uma foto antiga e nosso coração bate diferente, é porque aquela imagem está se movendo no tempo, está movendo memórias e sensações”
Como está seu trabalho atualmente, continua dedicada à fotografia de palco? Como está esse mercado?
O palco é minha casa, onde me sinto à vontade. Adoro o cheiro do linóleo, as coxias, os camarins, os técnicos arrumando os refletores e testando o som… Adoro o artista caminhando, se concentrando, se aquecendo, nervoso, tranquilo, seguro, ansioso, tenso, adoro esse “estado”. Isso me pertence, faz parte do que eu já fui e ainda sou. Não é um mercado fácil. Não é fácil ser bailarino, nossa cultura não valoriza a profissão. O mercado em geral é muito restrito. Com exceção de grandes companhias que têm patrocínio, e que são poucas, a maioria deles vive de apoios governamentais e sonhos. Muitos sonhos. Como dá para imaginar, todo o resto “dança conforme a música”. Mas um grande desafio é, também, fazer com que os próprios bailarinos e criadores percebam a importância da fotografia para o próprio trabalho. Acontece muito, demais mesmo, dos artistas dedicarem quase toda a verba que possuem para o figurino, a composição musical, o cenário, a produção e lá na véspera da estreia, quando precisam divulgar o espetáculo, se darem conta de que “SÓ tem isso para a fotografia!” Eles se esquecem de que são essas imagens, uma ou duas tiradas de muitas, que vão encher a casa de espectadores ansiosos para ver aquilo que a foto instigou dentro deles e levou-os a sair de casa. Esse trabalho precisa ser lembrado e valorizado, pois uma boa imagem, uma imagem que traduza o conceito do espetáculo e que mova as pessoas de suas poltronas particulares, tem um valor incrível! Agora, não dá para viver somente disso. Hoje em dia então, em que quase todas as pessoas têm sua digital na mão e estão “prontas” para trabalhar por valores muito baixos… Então, ainda respondendo à sua primeira pergunta, sim, meu grande amor é a fotografia de palco, e não só dança não, mas tudo o que se move no palco e bastidores. Porém, também faço festas, books, comidinhas e afins…
Qual, em sua opinião, é o grande desafio que a fotografia de palco impõe?
Poderia falar de várias coisas, mas primeiramente acho que o maior desafio está em captar a essência do artista e do espetáculo. A maioria dos fotógrafos da área se preocupa com os saltos congelados. Sim, existem milhões de fotos maravilhosas desses segundos mágicos e, sim, também são um desafio. Mas não os considero o maior deles. Outra questão, sempre, é a iluminação: essa sim é um desafio e tanto, já que a dança, especialmente a dança/pesquisa atual, contemporânea, usa sempre pouca, muitas vezes pouquíssima luz. Isso, quando não estamos falando de luz de velas…
Há algum profissional dessa área que sirva de inspiração ao seu trabalho?
Fotógrafos que me fotografaram dançando, os quais me inspiraram sempre e para sempre: Emídio Luisi e Gal Oppido!
Veja abaixo a galeria de fotos de Silvia Machado:
[wzslider]






