O ver fotográfico, por Marcello Sokal
O que é ver/enxergar?
Enxergar, olhar, observar, mirar, avistar, contemplar, distinguir, divisar, entrever, descortinar.
Palavras sinônimas, mas com significados diferentes. Como associamos isso em fotografia?
Conceitualmente falando, não é difÃcil entender o ver fotográfico, eu pelo menos não acho que seja, mas falando de maneira prática traz seus desafios.
Como reagir a uma cena, um objeto, uma pessoa ou uma paisagem? O que incluir, o que excluir, o que eu quero comunicar (e influenciar, de alguma maneira) a quem vir a obra resultante? Isso é uma coisa altamente pessoal.
O que eu quero “vender†através de minha captura?
É possÃvel trazer respostas concretas a um conceito subjetivo ao analisar e explorar o que temos em nossa frente, pela sua significância, substância, forma, textura e variação entre tons.
Assim podemos ensinar nossos olhos a buscar e explorar novas perspectivas.
É como dizem: A verdadeira viagem da descoberta consiste em não buscar novas paisagens, mas sim ter novos olhos…

Olhando – e vendo
Olhando, simplesmente olhando – à frente, atrás, acima, abaixo, perto, longe, em direções diversas – a partir de onde estamos nos permite identificar novas possibilidades, pontos e sequências que podem ser desenvolvidas, formando uma linha coesa – especialmente importante na realização de uma reportagem foto jornalÃstica, abordando um tema especÃfico.
Fazer uma leitura 360° a partir do ponto que se encontra pode ser muito interessante, para registro de objetos, situações e momentos diferenciados.
Invista certo tempo para ver o que encontra, faça análises mais aprofundadas.
Desenvolva um exercÃcio de criatividade, tentando enxergar como o que você encontra pode ser registrado de uma maneira completamente nova. Sim porque olhar nem sempre quer dizer ver…
Faça uma pesquisa prévia e como o que você vai registrar pode ser abordado de uma nova maneira, em um maior envolvimento.

O ver e o equipamento
Por vezes é a menor parte da equação.
Em que pese as imensas possibilidades criativas que uma câmera nos abre ela será só um instrumento, que vai obedecer nossa visão, nossa abordagem.
O equipamento pode e deve ser explorado, pois seu uso nos possibilita registros diferentes do que conseguimos a olho nu, como, por exemplo, nas exposições muito longas ou muito curtas.
Todo equipamento reflete na captura a intenção do fotógrafo, e essa intenção vai impactar de maneira mais ou menos acentuada o expectador (até dentro de interesses especÃficos dele).
A categoria – compacta, bridge, DSLR, Mirrorless – não importa. Importa o que registram e como registram. Naturalmente ter a opção de uso de objetivas especÃficas, como as de grande abertura máxima, por exemplo, ajuda a comunicar, enfatizar, uma situação, momento ou caracterÃstica. Mas isso de nada vai valer se a imagem final não trouxer uma mensagem, gerar um impacto. O que adianta uma imagem lindamente desfocada em termos de fundo se a mesma é banal?
Obviamente que quando se pensa num projeto autoral, de exposição fotográfica ou outras utilizações que pedem maior tamanho de ampliação e qualidade na imagem, devemos optar pelas DSLR ou Mirrorless – pelos tamanhos de sensor – mas aà também entra a questão do que foi registrado e não a qualidade em si do arquivo (maior, mais pesado e com maior capacidade de utilização em mÃdias diversas).

Pós-produção e “realidadeâ€
As imagens digitais podem, devem e precisam (no caso de quem só fotografa em RAW) passar por tratamento, edição pós-produção. Quem determina o grau desse tratamento é o fotógrafo, sua intenção e muitas vezes o público a quem a produção se destina.
As imagens fotográficas desde os primórdios da fotografia passam por todo tipo de manipulação e modificação – no inÃcio em laboratório quÃmico, hoje em dia com base eletrônica – mas sempre visando algum tipo de correção ou aperfeiçoamento, depois do disparo inicial.
Essas modificações podem ser motivadas por fatores estéticos, comerciais ou polÃticos, mas sempre tendo em mente que o exagero pode levar à descrédito, comprometendo o trabalho e contexto nas quais as imagens estão vinculadas, principalmente em relação ao fotojornalismo.
“Realidade†é uma palavra subjetiva e que varia de acordo com a formação e convicção de cada um, contudo há de se estabelecer noções dentro do que conhecemos de maneira “convencionalâ€, até como parâmetro de avaliação.
Realidade em fotografia é ainda mais complicado, pois a alteramos ao excluir elementos, usar determinados enquadramentos e composições para comunicar, induzir, uma mensagem (por vezes distinta do contexto nas quais foram registradas). Uma mensagem que muitas vezes passa por nosso credo social ou polÃtico. Ou seja: usamos uma imagem fotográfica para passar nossa versão da realidade e assim modificar a forma como as pessoas percebem a própria.
Papo longo, complexo e que passa por muitos fatores, mas sempre válida a reflexão sobre o assunto, que é de fundamental importância.

Pós-produção e edição
O ponto a se pensar – talvez, já que esse critério cada um estabelece – é o quanto o sucesso da captura depende do uso posterior de presets (que qualquer um baixa e usa) e outras edições que tornam a captura quase irreconhecÃvel com a original.
Porque fotógrafo é uma coisa, editor de imagem é outra. Claro que todo fotógrafo é até certo grau editor (no sentido de aprimorar uma imagem inicial), mas falo em modificações maiores, mais extensas, em termos de cores (completamente distintas das quais observados à olho nu), retirada ou colocação de itens nas cenas capturadas, no momento do disparo.
Cada um é livre e deve optar pela linha que acredita, alguns são mais puristas, outros mais para a vanguarda, conceitual, outros simplesmente mais voltados para o mercado (e que assim que surge um novo modismo segue, sem conseguir estabelecer uma linha que identifique sua produção fotográfica ao longo do tempo, não cria uma “assinaturaâ€), tendo em mente que suas imagens são sua “assinaturaâ€, seu canal de comunicação com o mundo e como esse te percebe.
Alguns preferem “fabricar†sua própria “realidadeâ€, outros são mais fiéis ao que encontraram ou desenvolveram no momento do disparo.
Mas no final das contas quem dá o limite, o veredito, é o mercado. Se existe “limite†esse é imposto pelo segmento no qual se atua.
Resumo da ópera
Em tempos de facilidade de registro, edição e compartilhamento de imagens falar em certos temas nem sempre é fácil, mas necessário, visto a profusão de imagens todos os dias sendo postadas em sites e redes sociais (na faixa de dezenas de milhares, por dia, em todo o mundo). E isso impacta o mercado profissional, forçando os fotógrafos a se reinventarem, se adaptar aos rumos e humores do mercado, do que as pessoas querem (ou são induzidas a querer, por diversos mecanismos altamente elaborados) e nisso a capacidade de ver se torna importante, faz a diferença.
As imagens que compõem esse artigo foram capturadas através de câmera de pelÃcula fotográfica Leica M6, sem manipulações posteriores à digitalização.
sensacional.. adorei.. muito bom mesmo.. todos devem ler esta reportagem..
Para quem se acha fotógrafo olha e ve ..
a fotohgrafia em sua plenitude
Fotografia é poesia, é arte! Escrever é fotografar com letras, vejo, sinto, adoro, penso…Que viagem juntar, misturar as duas formas de comunicar, encantar, propagar, dizer, contextualizar… numa só expressão!
Lindo!