Artes Visuais

Os fantásticos álbuns de fotografias e fotocolagens das Mulheres Vitorianas

As fotografias de família e os álbuns se tonaram comuns com a popularização e simplificação da própria fotografia, especialmente depois que a primeira câmera Kodak foi lançada, em 1888, com o slogan “você aperta o botão, nós fazemos o resto”.

No entanto, antes disso, muitas mulheres vitorianas das classes mais elevadas realizaram experiências com fotocolagens em álbuns, os quais costumavam incluir fotografias de família, mas iam muito além dessa temática, criando composições fantásticas e de mídia mista, combinando corpos de animais com cabeças de pessoas conhecidas, inventando paisagens imaginárias e transformando rostos em objetos domésticos, brincando com as convenções da sociedade em que viviam.

Elas exibiam esses álbuns para a família e os amigos e inadvertidamente anteciparam a vanguarda do século XX, em que artistas adotaram a técnica da colagem. Suas imagens também eram surrealistas e desrespeitavam as restrições da vida feminina na sociedade vitoriana, além disso, esses álbuns são um ponto fora da curva em relação ao que era praticado na fotografia da época, fugindo da representação perfeita da realidade.

Lady Filmer, uma das primeiras defensoras da arte da colagem fotográfica, retrata a si mesma com seu álbum e suas ferramentas, em sua sala de estar, na presença do príncipe de Gales, um convidado ilustre e cobiçado pelas anfitriãs da sociedade, que se apoia na mesma mesa onde ela está preparando suas colagens; os dois tinham um flerte conhecido, que se dava em partes por meio de troca de fotografias e pelo álbum de Filmer, onde a imagem dele aparecia com frequência. Nessa colagem, o príncipe aparece em maior tamanho e evidência do que seu marido, Sir Edmund Filmer, que está sentado perto de um cachorro no canto inferior direito. 

Kate Gough, também adepta das fotocolagens, por sua vez, provavelmente montou seu álbum durante seu namoro e primeiros anos de casamento com Hugh Gough, um tenente da Marinha Real. Essa composição de patos com rostos de mulheres – uma delas, Kate, ou sua irmã gêmea idêntica, Grace – pode ter sido inspirada nas teorias da evolução de Charles Darwin ou em cartuns políticos. O álbum revela muito de seu humor, inteligência e criatividade, assim como suas habilidades manuais e artísticas.

Fontes: HACKING, Juliet. Tudo sobre fotografia. Rio de Janeiro: Sextante, 2012.THE ART INSTITUTE OF CHICAGO. Playing with Pictures: the art of victorian photocollage. The Art of Victorian Photocollage. 2010. Disponível em: https://www.metmuseum.org/exhibitions/listings/2010/victorian-photocollage/photo-gallery. Acesso em: 10 mar. 2021.

Sobre o autor

Monique Burigo

Monique Burigo Marin utiliza o nome artístico Monique Burigo, privilegiando o sobrenome que recebeu de sua mãe, em uma sociedade que apaga as mulheres e seus nomes. Artista visual e pesquisadora, graduada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela UNIVALI (2014), formada em Fotografia Artística pela EFA (2017) e mestre em Artes Visuais - Teoria e História das Artes Visuais, pela UDESC, com bolsa CAPES (2020). Seus trabalhos estão voltados principalmente para a produção de fotografias, tendo a vídeo arte e a fotografia híbrida entre seus interesses, explorando principalmente o autorretrato e as narrativas, suas criações são atravessadas por questões relacionadas à memória, ao feminismo e ao meio ambiente. A escrita é frequentemente parte de seu processo e, algumas vezes, da própria obra. Participou de diversas mostras coletivas e levou sua exposição “EU ERA UM OCEANO” para as cidades de Rohtak e Hyderabad, na Índia, em 2018.

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