Entrevista Estúdio Fotografia de rua

As streets de Caesar Lima

Livros de fotografia

O paulistano Caesar Lima, 54 anos de idade, tem uma larga experiência internacional. Trocou os arredores do Pacaembu pela ensolarada Califórnia em 1984, inicialmente com a ideia de assistir aos jogos olímpicos de Los Angeles, mas decidindo ficar para tentar a sorte como fotógrafo de publicidade. Decisão acertada, conforme atestam os prêmios que ele acumula na carreira (foram quatorze até aqui, oito só nos últimos dois anos) e o portfolio coberto de imagens que misturam técnica e criatividade – e fazem dele um profissional bem-sucedido em terras de Tio Sam. No último mês, entretanto, Caesar se apartou um pouco da rotina do estúdio e das beldades que normalmente fotografa e ficou uns dias na Espanha. Só não dispensou a câmera. Levou uma pequena mas sofisticada Sony RX1 e atacou de street photographer. E gostou tanto do resultado que o exercício tende a se tornar uma série. Abaixo, você conhece um pouco mais desse talento e de sua mais recente obsessão.

Caesar Lima: criatividade brasileira e técnica norte-americana

Li que você estudou na ESPM e trabalhou como diretor de arte antes de se lançar na fotografia, o que fez por influência do fotógrafo Dimitri Lee. Como isso aconteceu? Quando eu o conheci, fiquei louco com o seu estúdio, era um grande fotógrafo também. Aí, caiu a ficha para mim.

Você está nos EUA há quase 30 anos. Foi em busca de oportunidades no campo da fotografia publicitária, segundo li… Como o mercado de propaganda aqui sempre foi muito maior e a minha esposa já tinha morado aqui antes, resolvemos tentar a vida por aqui.

E já dá para se considerar um cidadão norte-americano ou você continua um fotógrafo brasileiro em terras de Tio Sam? Olha, eu sou cidadão americano, mas meu coração sempre foi brasileiro. Mas eu acho que é por aí mesmo, essa combinação me faz diferente: criatividade de brasileiro e a técnica de americano (rs).

O seu trabalho é nas áreas de publicidade, beleza e moda, certo? Mas, você faz tanto trabalhos autorais quanto comerciais para esses segmentos. Como está atualmente o seu trabalho e o que você tem feito em termos comerciais e também de projetos pessoais? É uma combinação. Terminei de fotografar uma campanha enorme para a T-Mobile com a Carly Foulkes [veja aqui] e tenho feito muitos ensaios para beleza e companhias de cosméticos, mas sempre que tenho tempo, fotografo as minhas ideias, como o Kimono Punk, a Mulher-Gato etc. Não consigo ficar parado.

Suas imagens são de certo modo incomuns. Há bastante elementos de sensualidade e também de fantasia. Como você construiu essa estética e como você define o seu estilo de fotografar? E como está o mercado, aí nos EUA, para esse tipo de trabalho? Olha, é bem espontâneo. Quando fotografo moda ou beleza, sempre acaba ficando sensual e, quando me dão espaço, vira fantasia. O mercado está melhorando bem este ano. Em 2008 tivemos uma caída enorme, quando a economia quase parou, e você sente de imediato no ramo da publicidade: a primeira coisa que as companhias fazem é parar de anunciar, o que é o maior erro. Época de crise é a hora de ser agressivo e ganhar “market share”, nessas épocas existe muito menos competição, mas muitos não conseguem ver isso. Eu acho mais fácil se sobressair e ter sucesso em épocas de crise porque o mercado esvazia e, se você é bom no que faz, fica mais fácil!

Você tem um currículo recheado de prêmios. Esse tipo de coisa faz diferença na hora de captar novos clientes? Qual o sentimento de ter o trabalho reconhecido dessa maneira? Faz sim, aqui se dá muita importância a fotógrafos que ganham prêmios, mas, como artistas, esse reconhecimento é muito importante e vivemos desse feedback, isso é a nossa “gasolina” para que possamos sempre tentar coisas novas e inusitadas, fotografia é um ramo maravilhoso, existem regras, mas o mais gostoso é quebrá-las.

Sobre a sua série de street photography. Você esteve na Espanha no mês passado. Foi a trabalho ou estava de folga e resolveu fotografar um pouco por lá? Passei um pouco mais de duas semanas em oito cidades na Espanha, muito legal, estou obcecado com street photography, é totalmente o oposto do que faco – câmera pequena, luz ambiente, nada é planejado, tudo espontâneo. Usei a nova Sony RX1, que é full-frame, 24 megapixels, maravilhosa… Eu tinha a câmera na mão 24 horas por dia.

As fotos foram feitas apenas por “curtição” ou são parte de um projeto seu? Acabou virando um projeto, o resultado ficou tão bom que gostaria de fazer dois ou três por ano em países diferentes. Você precisa de duas semanas, no mínimo.

É uma prática sua, fazer fotografias de rua? Para alguém acostumado ao estúdio e toda a parafernália que envolve, como é fotografar de um modo menos compromissado, e na rua? Exatamente. Sem pressão, sem layout, você tem que tirar vantagem da luz ambiente e tomar decisões em segundos, ninguém está posando para você, a gente vira um repórter visual tentando contar uma história sem palavras, é a combinação do landscape do ambiente e as pessoas. Nesse cenário as pessoas acabam virando “props”, ficam num segundo plano não menos importante porque a presença delas é que define o conteúdo da imagem.

Você usou uma novidade da Sony, a RX1. Foi uma espécie de “teste drive”? O que achou da câmera? Essa câmera é maravilhosa, não só porque é full-frame 24MP e superpequena (a menor câmera de sensor-full frame que foi fabricada até hoje), mas por ter todos os controles como nas câmeras antigas, total controle manual, posso trocar o fstop ou o exposure da imagem com botões específicos para isso. Custa bem caro, mas essa é a reposta da Sony contra a Leica – conseguiu fazer uma full-frame rangefinder menor e mais barata.

E o que achou do resultado do trabalho, das fotos em si? E, para quem gosta desse tipo de fotografia, que recado você pode deixar? Como deve ser uma boa sessão de fotografias de rua? Eu fiquei superfeliz, quero fazer duas ou três dessas por ano, adoraria fazer algumas exposições aí no Brasil. A minha dica para quem gosta de street photography seria começar com uma boa câmera portátil (se possível, a RX1, senão as Olympus e Panasonic do formato 4/3 são boas também), mas a câmera é só o começo, apenas um instrumento, você tem que prestar atenção no que está acontecendo ao seu redor, tentar captar algo interessante ou inesperado, avaliar a luz e o local, e muita paciência. Às vezes você anda por cinco, seis horas e só consegue uma foto boa. Eu adoro a luz de fim de dia, mas bem cedinho também é bem legal, luz dura, bem contrastada. O segredo é fotografar bastante todo dia. É como um músculo: quanto mais você usa, mais forte fica.

Sobre o autor

Alcides Mafra

Jornalista e colaborador do iPhoto Channel (alcidesmafra@iphotochannel.com.br)

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