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Tina Gomes: fotografar para se divorciar da dor

Muitos encontram no sofrimento o caminho para a arte. Talvez nenhum deles quisesse trilhar essa estrada, mas a vida às vezes não dá escolha: o mal está feito e é preciso seguir em frente. Tina Gomes encontrou pequenas e imensas tragédias em seus 39 anos de vida. Está ainda no olho do furacão. No processo, a fotografia veio para lhe ajudar a se divorciar um pouco da dor.

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Sua história é diferente do que se costuma ver no mundo da fotografia, mas é tipicamente brasileira. Fala de pouca escolaridade, escassas oportunidades, muitos filhos, quase nenhum dinheiro, doença e perda. A maior delas, uma filha que não chegou a ver a luz do dia, lançou a paulista do Guarujá na mais escura depressão. Isso foi há um ano. Um mês depois que Luz Maria se foi, Tina pegou um aparelho celular (“desses do Paraguai”), chamou sua outra filha Sophia, de doze anos, disse a ela onde ficar e apertou o botão da câmera. “Aí eu ia no editor [de imagens] e deixava ali, em cada pincelada, a minha dor, tudo o que era ruim, como se estivesse aprisionando”, ela conta.

Não foi sua primeira experiência fotografando. “Já clicava faz uns dois anos. Não tinha nenhuma intenção e jamais acreditei que ia dar nisso tudo”. Ao postar suas fotos no Facebook, chamou a atenção da fotógrafa paulista Rita Barreto: “Percebi seu talento, precisava só uma oportunidade para estudar”. Rita a levou ao Grupo Luminous de Fotografia. Deu-lhe de presente uma câmera compacta. “Foi aí que indiquei a escola de fotografia, a Riguardare, escola onde aprendi o curso básico de fotografia. Depois que a Tina conseguiu uma bolsa gratuita na Riguardare, outras portas se abriram para ela. Ganhou equipamentos e alguns cursos. Ela tem dificuldades financeiras e saúde delicada, além de ter cinco filhos para sustentar”, explica Rita.

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Tina Gomes usa a fotografia para “aprisionar a dor” 

“O pessoal ajudava com meu almoço, minha condução, os alunos se reuniam e me ajudavam. Até que um dia inventaram uma festa e me deram uma câmera de presente. Aí pude saber como mexer nesse negócio de ISO, abertura, diafragma”, lembra Tina, que mora há onze anos em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo. Durante dez anos foi cobradora de ônibus, até que a empresa faliu. No momento, está requerendo do INSS o auxílio-doença, visto que seu prontuário indica um rosário de enfermidades: hérnias de disco, fibromialgia, síndrome de carpo e transtorno esquizoafetivo. O pai de Luz Maria ajuda a cuidar das crianças e da casa, por isso não trabalha fora. A família se vira com uma ou outra foto que Tina vende e com a solidariedade dos vizinhos. Até o time do bairro, a Associação Esportiva Fumaça, entrou na corrente, “contratando-a” para cobrir os jogos em troca de uma cesta básica e algumas roupas.

Tina Gomes se vê não como fotógrafa, mas como contadora de histórias. Sua matéria-prima são figurinos improvisados, algumas tintas e um caudal de emoções viscerais: “Melancolia e arte, duas instâncias que se cruzam e são inseparáveis em sua fotografia. Sua saúde é uma influência forte em seu trabalho, com imagens de tom melancólico e até mesmo perturbador”, analisa Rita Barreto. “Meus modelos são poucos e tenho que conhecê-los bem, conversar e pedir que eles mostrem pra mim como é sentir aquilo e eu vou e fotografo”, resume Tina, que conta principalmente com os filhos como modelos.

Embora tenha superado um abismo para se aproximar do universo formal da fotografia, seu relacionamento com ela ainda se dá no nível da intuição, marcado pela vivência e pela percepção de quem, excluído, se faz incluir: “O que eu quero passar é que as pessoas entendam que, por menos estudo que tenham, a cultura se adquire de graça, é só ler. Posso escrever errado, mas e daí?”, questiona. Seus planos para a recém-descoberta veia artística não poderiam ser mais legítimos: dar de comer e vestir aos filhos, o essencial que falta a tantos na periferia. No Brasil, uma ambição e tanto. Mas não tem como não torcer por ela.

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