Fotografia de família Produção de ensaios

Família: o ‘lifestyle’ de Fernanda Petelinkar

Fotos ao ar livre, descontraídas e descompromissadas. A fotografia de família, a bola da vez do segmento social, aposta na leveza e na naturalidade. Por isso, saiu do estúdio para mostrar casais felizes vendo seus filhos brincando num domingo no parque ou em alegre expectativa pela chegada do primeiro herdeiro. Fernanda Petelinkar dá um passo além nessa fórmula ao adicionar pitadas de humor e arte aos seus ensaios – como ela mesma diz, sem poses, nem protocolos.

Fernanda Petelinkar: estilo livre e solto

A fotografia dessa paulistana de 34 anos, formada pelo Senac, é um bom exemplo de que não é preciso grandes produções – mas um olhar quase “moleque” – para se alcançar um resultado agradável aos clientes. O que é uma boa notícia para qualquer fotógrafo que esteja começando, pois não precisará se incomodar em montar um estúdio ou juntar um monte de acessórios, podendo confiar mais no seu olhar e na luz do sol para se estabelecer nesse mercado.

“Meu estilo é mais livre e solto”, diz a paulistana, que estudou engenharia, embora amasse arquitetura. Caiu nessa por dar ouvidos ao tio, que previu um futuro de penúria se fizesse o contrário. Acabou que odiou aquilo e resolveu ser fotógrafa. Começou com casamentos e fotos para uma imobiliária descolada, o que a mantinha perto da arquitetura. Com a crise no setor, partiu para a fotografia de gestantes, por indicação de Nellie Solitrenick. “Fiz as fotos na casa da cliente, com flashes de estúdio e tudo mais. Mas me senti muito presa a todos aqueles equipamentos. E a partir daí comecei a fotografar grávidas ao ar livre, em suas casas, sem flashes e luzes. Só usando a luz natural”, afirma. Essa abordagem ainda não era muito comum, mas deu certo e fez sucesso.

Assim, sem necessidade de estúdio, a fotógrafa estabeleceu o que ela chama de ensaio “lifestyle”. Mas que você pode chamar de fotos de família mesmo. Algo que, do ponto de vista do mercado, está em alta, mas que carece ainda de uma melhor percepção dos clientes para “bombar” de vez. Pelo menos, é assim que Fernanda pinta o quadro: “Do ponto de vista da demanda, ainda tem muito [ela exagera no ‘muito’] para melhorar. Culturalmente, o Brasil não tem esse hábito, da fotografia de família. Enquanto que nos EUA é comum as famílias fazerem uma sessão de fotos por ano, aqui isso ainda é um tabu. Tem muito preconceito envolvido, as pessoas têm vergonha, acham cafona e sempre relacionam esse mercado com aquele estilo de foto em estúdio, fundo branco, aquela coisa mais posada e careta”, avalia.

Só que melhorou bastante, ela mesma reconhece. Existe demanda, ainda que pequena, e quem está nessa aposta que vai evoluir mais. Inclusive, nas condições de trabalho: “É a oportunidade da gente modelar esse mercado da forma como a gente quiser, porque até pouco tempo ele praticamente não existia. Espero que os fotógrafos que atuam nesse segmento saibam aproveitar essa oportunidade”, deseja a paulistana, fixando uma prerrogativa nada técnica para quem pensa em apostar no filão: “Parace bobo, mas pode acreditar: tem um monte de gente que não dá valor para a própria família, essa pessoa nunca deveria fotografar família. Assim como um fotógrafo de casamento que não acredita em casamentos não deveria trabalhar nesse ramo. Porque é uma arte. E como qualquer arte, você tem que se entregar de corpo e alma. Tem que sentir e tem que amar. Tem que ter a capacidade de enxergar o valor da família na vida”, justifica.

Mas vale ressaltar o aspecto da simplicidade. Para Fernanda, uma câmera (no seu caso, uma Canon 5D Mark III) e algumas lentes fixas é o que basta. Todo o resto é definido junto com os clientes, que após isso são deixados para se divertir ao ar livre, ou em casa, enquanto que ela trabalha.

“Isso dura em torno de duas horas. Mas não tem uma regra e nem limite. Já fiz sessões que duraram muito mais e outras bem menos. Eu costumo dizer que quem manda na sessão é sempre a criança (ou as crianças) e elas são sempre imprevisíveis, né?”. De bem com a vida, a fotógrafa acredita que seu lado “resolvido” ajuda na hora de compor, de capturar o clima da sessão: “Eu acho que isso tudo tem muito a ver com aquilo que me inspira. E eu sou movida a felicidade. Então eu resgato dentro de mim tudo aquilo que pra mim representa família feliz. Diversão, amor, chamego, brincadeiras, apertos e beijos. O objetivo é sempre estimular as famílias a representarem ali pra mim, de uma forma natural, o que é felicidade, o que é família feliz pra eles. Às vezes a gente precisa dar um empurrãozinho, mas depois que eles se soltam (os adultos, né? Porque as crianças são sempre espontâneas) meu papel é apenas registrar tudo aquilo que está na minha frente”.

O resultado, invariavelmente, satisfaz seu público. Mais do que isso, pois sem dúvida Fernanda está em sintonia com o que seus clientes esperam, que é basicamente o espírito dessa nova fotografia de família, que dispensa o formalismo do estúdio em favor de uma visão mais espontânea da vida: “É gente que dá muito valor à fotografia como registro e percebe a carga emocional que uma sessão de fotos feita nesse estilo tem. É um dia na vida deles. Um dia que representa uma fase, que ficará guardada pra sempre e poderá ser acessada quando eles quiserem”.