O fotógrafo do bem

Ele bem que tenta nos convencer de que não é, afinal, um bom rapaz. Mas a disposição em ajudar as pessoas desmente Leonardo de Mattos Neves, um sujeito que não perde oportunidade de promover a cidadania. Sua arma, não poderia deixar de ser, é a mesma que usa para ganhar a vida: a fotografia.

Léo Neves tem 26 anos de idade e nasceu no Rio de Janeiro. Porém, cresceu em Itaocara, no interior do estado, onde teve daquelas infâncias de subir em árvore e roubar mangas do vizinho, conforme nos conta. As férias, ele passava no Rio. Em uma delas, um tio fotógrafo começou a ensinar-lhe o básico com uma antiga Zenit. “[Ele] me levava pela cidade e fazíamos vários rolos de filme, anotando numa caderneta as informações técnicas. Depois de revelar os filmes, a gente sentava para comparar as fotos”, lembra Léo.

Foto: Léo Neves

O aprendizado foi bom enquanto durou a mesada: “Passei anos sem ter sequer uma câmera compacta (na época, nem celular com câmera eu tinha)”. Só que, mais tarde, quando o tio morreu e deixou uma pequena herança, Léo decidiu honrá-lo comprando uma máquina e retomando seu caminho na fotografia.

Daí a ganhar dinheiro com isso foi questão de alguns acordes. Convidado por um amigo a fazer fotos da banda dele num festival, Léo chamou a atenção dos organizadores e cobriu o evento inteiro (“foi meu primeiro trabalho pago de fotografia”).

Com o início promissor, ele logo passou a fotografar shows e eventos sociais para o Jornal do Brasil. Um trabalho extra, pois sua ocupação mesmo era como supervisor comercial de uma empresa de cosméticos. Não tardou muito e a fotografia prevaleceu. Depois que o JB parou de ser impresso, Léo atuou como assistente e se interessou por retratos. Em julho do ano passado, resolveu arriscar: se mudou para São Paulo, visando o mercado editorial. “Hoje, atendo algumas publicações e assessorias de imprensa do mercado corporativo como freelancer. Além disso, sou professor em uma escola de fotografia e ministro oficinas de iluminação com flash dedicado”, explica.

Foto: Léo Neves
Léo Neves se mudou para SP, onde trabalha com retratos

Sua rotina se completa com as ações sociais. O carioca tira um dia para ministrar oficinas e arrecadar donativos. Ele conta com a ajuda de colegas, como ocorreu no final de abril, quando seu pessoal compartilhou técnicas e conseguiu R$ 1.500 para a Associação de Amigos da Vila do Papelão. A ideia funciona da seguinte forma: os fotógrafos entram com o conhecimento e os alunos dão dinheiro para alguma causa.

Foto: Léo Neves
Retratos na Parada Gay: enfrentando o próprio preconceito

“O que me custa doar um dia do meu trabalho e do meu conhecimento para ajudar alguém, ou alguma causa em que eu acredite? Continuo trabalhando normalmente, mas, quando me deparo com alguma situação onde eu posso fazer algo, procuro colocar mais alguns pesos no lado bom da balança”, diz Léo, que relativiza a magnanimidade da ação: “O que mede o sucesso desse tipo de ação não é apenas atingir uma meta de doações. É legal dar oportunidade a gente que quer ajudar, mas não sabe muito bem como. Quem recebe a ajuda é mudado, quem ajuda é mudado e eu fico muito feliz em ser o facilitador dessa relação. Por isso eu brinco dizendo que não sou uma boa pessoa. No fundo, não faço nada que não esteja ao meu alcance. Tem muita gente por aí fazendo muito mais. O Special Kids, por exemplo, prepara fotógrafos para trabalhar com crianças com necessidades especiais. O Retrato Social é um projeto de João Pessoa que usa a fotografia como um catalizador de mudança social, ministrando cursos em comunidades carentes e até em presídios. E, claro, não posso deixar de citar o Help-Portrait, que faz a gente ver uma fotografia simples ter um valor tão grande que fica até difícil descrever”, argumenta.

Léo participa deste último desde 2010. Lançado em 2009 pelo fotógrafo de celebridades do Tennessee (EUA) Jeremy Cowart, o Help-Portrait é uma iniciativa mundial que já mobilizou mais de dez mil fotógrafos e voluntários. Consiste em encontrar pessoas necessitadas, fazer um retrato delas, imprimir e dar a foto de presente.

“É muito legal poder ver o sorriso no rosto das pessoas e perceber como uma foto pode realmente fazer alguém feliz. A gente tá tão acostumado a ver tanta foto o dia inteiro que esquece a força que uma imagem pode ter”, afirma Léo, que ano passado participou de uma grande ação em uma creche municipal em Itaquera, zona leste de São Paulo. O trabalho foi organizado pela ONG Usina 21 e teve apoio da Secretaria de Cultura do município. “Conseguimos montar oito estúdios nas dependências da creche e convidamos as famílias para serem fotografadas. Muitas famílias não esperavam chegar lá e receber toda a atenção que tiveram. Foram mais ou menos 150 voluntários envolvidos, entre fotógrafos, cinegrafistas, maquiadores, psicólogos, assistentes sociais, recreadores, jornalistas etc.”

“É muito legal poder ver o sorriso no rosto das pessoas e perceber como uma foto pode realmente fazer alguém feliz” (Léo Neves)

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Em janeiro ocorreu a primeira exposição no mundo sobre o Help-Portrait. Foi no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Uma segunda mostra aconteceu no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio, cujo término foi dia 13 de maio. “O CCJF gostou tanto do projeto que abriu suas portas para uma ação este ano. Agora a gente só precisa juntar uma galera boa para organizar uma ação lá no dia 8 de dezembro, dia em que grupos do mundo inteiro vão fazer suas ações ao mesmo tempo”, destaca.

Foto: Léo Neves
Léo Neves: "Não faço nada que não esteja ao meu alcance" (foto: autorretrato)

Em 2011, Léo promoveu um ensaio nos moldes do HP. Foi durante a parada LGBT na Avenida Paulista. Ele tinha acabado de se mudar para São Paulo, estava na Consolação, itinerário da passeata, e decidiu se misturar à multidão. “Montei um pequeno estúdio, na rua mesmo, e alguns amigos que estavam fazendo um trabalho de conscientização me ajudaram a trazer as pessoas. Duzentas pessoas foram fotografadas, mais ou menos”. O ensaio, que também foi exposto recentemente no CCJF-RJ, ajudou o próprio fotógrafo a confrontar seus preconceitos: “Eu não queria fazer fotos distantes, então levei uma 50mm, uma octabox, um flash e disposição. Esse tipo de equipamento me obrigou a conversar, interagir, conhecer um pouco todos os fotografados. Eu não queria ser um ponto neutro no meio da multidão”, diz.

Assim, de olho sempre em aumentar seu saldo de boas ações, Léo conduz seu trabalho. Entre uma ação solidária e outra, ele também se preocupa em evoluir enquanto profissional. Para isso, ideias não faltam: “Iniciei um grupo em São Paulo com a ideia de estimular a criatividade e tentar se libertar de tanta coisa que a gente é condicionado a entender como verdades absolutas. Estamos engatinhando, mas já surgiram ideias bacanas”.

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Ele bem que tenta nos convencer de que não é, afinal, um bom rapaz. Mas a disposição em ajudar as pessoas desmente Leonardo de Mattos Neves, um sujeito que não perde oportunidade de promover a cidadania. Sua arma, não poderia deixar de ser, é a mesma que usa para ganhar a vida: a fotografia.

Léo Neves tem 26 anos de idade e nasceu no Rio de Janeiro. Porém, cresceu em Itaocara, no interior do estado, onde teve daquelas infâncias de subir em árvore e roubar mangas do vizinho, conforme nos conta. As férias, ele passava no Rio. Em uma delas, um tio fotógrafo começou a ensinar-lhe o básico com uma antiga Zenit. “[Ele] me levava pela cidade e fazíamos vários rolos de filme, anotando numa caderneta as informações técnicas. Depois de revelar os filmes, a gente sentava para comparar as fotos”, lembra Léo.

Foto: Léo Neves

O aprendizado foi bom enquanto durou a mesada: “Passei anos sem ter sequer uma câmera compacta (na época, nem celular com câmera eu tinha)”. Só que, mais tarde, quando o tio morreu e deixou uma pequena herança, Léo decidiu honrá-lo comprando uma máquina e retomando seu caminho na fotografia.

Daí a ganhar dinheiro com isso foi questão de alguns acordes. Convidado por um amigo a fazer fotos da banda dele num festival, Léo chamou a atenção dos organizadores e cobriu o evento inteiro (“foi meu primeiro trabalho pago de fotografia”).

Com o início promissor, ele logo passou a fotografar shows e eventos sociais para o Jornal do Brasil. Um trabalho extra, pois sua ocupação mesmo era como supervisor comercial de uma empresa de cosméticos. Não tardou muito e a fotografia prevaleceu. Depois que o JB parou de ser impresso, Léo atuou como assistente e se interessou por retratos. Em julho do ano passado, resolveu arriscar: se mudou para São Paulo, visando o mercado editorial. “Hoje, atendo algumas publicações e assessorias de imprensa do mercado corporativo como freelancer. Além disso, sou professor em uma escola de fotografia e ministro oficinas de iluminação com flash dedicado”, explica.

Foto: Léo Neves
Léo Neves se mudou para SP, onde trabalha com retratos

Sua rotina se completa com as ações sociais. O carioca tira um dia para ministrar oficinas e arrecadar donativos. Ele conta com a ajuda de colegas, como ocorreu no final de abril, quando seu pessoal compartilhou técnicas e conseguiu R$ 1.500 para a Associação de Amigos da Vila do Papelão. A ideia funciona da seguinte forma: os fotógrafos entram com o conhecimento e os alunos dão dinheiro para alguma causa.

Foto: Léo Neves
Retratos na Parada Gay: enfrentando o próprio preconceito

“O que me custa doar um dia do meu trabalho e do meu conhecimento para ajudar alguém, ou alguma causa em que eu acredite? Continuo trabalhando normalmente, mas, quando me deparo com alguma situação onde eu posso fazer algo, procuro colocar mais alguns pesos no lado bom da balança”, diz Léo, que relativiza a magnanimidade da ação: “O que mede o sucesso desse tipo de ação não é apenas atingir uma meta de doações. É legal dar oportunidade a gente que quer ajudar, mas não sabe muito bem como. Quem recebe a ajuda é mudado, quem ajuda é mudado e eu fico muito feliz em ser o facilitador dessa relação. Por isso eu brinco dizendo que não sou uma boa pessoa. No fundo, não faço nada que não esteja ao meu alcance. Tem muita gente por aí fazendo muito mais. O Special Kids, por exemplo, prepara fotógrafos para trabalhar com crianças com necessidades especiais. O Retrato Social é um projeto de João Pessoa que usa a fotografia como um catalizador de mudança social, ministrando cursos em comunidades carentes e até em presídios. E, claro, não posso deixar de citar o Help-Portrait, que faz a gente ver uma fotografia simples ter um valor tão grande que fica até difícil descrever”, argumenta.

Léo participa deste último desde 2010. Lançado em 2009 pelo fotógrafo de celebridades do Tennessee (EUA) Jeremy Cowart, o Help-Portrait é uma iniciativa mundial que já mobilizou mais de dez mil fotógrafos e voluntários. Consiste em encontrar pessoas necessitadas, fazer um retrato delas, imprimir e dar a foto de presente.

“É muito legal poder ver o sorriso no rosto das pessoas e perceber como uma foto pode realmente fazer alguém feliz. A gente tá tão acostumado a ver tanta foto o dia inteiro que esquece a força que uma imagem pode ter”, afirma Léo, que ano passado participou de uma grande ação em uma creche municipal em Itaquera, zona leste de São Paulo. O trabalho foi organizado pela ONG Usina 21 e teve apoio da Secretaria de Cultura do município. “Conseguimos montar oito estúdios nas dependências da creche e convidamos as famílias para serem fotografadas. Muitas famílias não esperavam chegar lá e receber toda a atenção que tiveram. Foram mais ou menos 150 voluntários envolvidos, entre fotógrafos, cinegrafistas, maquiadores, psicólogos, assistentes sociais, recreadores, jornalistas etc.”

“É muito legal poder ver o sorriso no rosto das pessoas e perceber como uma foto pode realmente fazer alguém feliz” (Léo Neves)

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Em janeiro ocorreu a primeira exposição no mundo sobre o Help-Portrait. Foi no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Uma segunda mostra aconteceu no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio, cujo término foi dia 13 de maio. “O CCJF gostou tanto do projeto que abriu suas portas para uma ação este ano. Agora a gente só precisa juntar uma galera boa para organizar uma ação lá no dia 8 de dezembro, dia em que grupos do mundo inteiro vão fazer suas ações ao mesmo tempo”, destaca.

Foto: Léo Neves
Léo Neves: "Não faço nada que não esteja ao meu alcance" (foto: autorretrato)

Em 2011, Léo promoveu um ensaio nos moldes do HP. Foi durante a parada LGBT na Avenida Paulista. Ele tinha acabado de se mudar para São Paulo, estava na Consolação, itinerário da passeata, e decidiu se misturar à multidão. “Montei um pequeno estúdio, na rua mesmo, e alguns amigos que estavam fazendo um trabalho de conscientização me ajudaram a trazer as pessoas. Duzentas pessoas foram fotografadas, mais ou menos”. O ensaio, que também foi exposto recentemente no CCJF-RJ, ajudou o próprio fotógrafo a confrontar seus preconceitos: “Eu não queria fazer fotos distantes, então levei uma 50mm, uma octabox, um flash e disposição. Esse tipo de equipamento me obrigou a conversar, interagir, conhecer um pouco todos os fotografados. Eu não queria ser um ponto neutro no meio da multidão”, diz.

Assim, de olho sempre em aumentar seu saldo de boas ações, Léo conduz seu trabalho. Entre uma ação solidária e outra, ele também se preocupa em evoluir enquanto profissional. Para isso, ideias não faltam: “Iniciei um grupo em São Paulo com a ideia de estimular a criatividade e tentar se libertar de tanta coisa que a gente é condicionado a entender como verdades absolutas. Estamos engatinhando, mas já surgiram ideias bacanas”.

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