Inspiração Natureza

Galeria Natureza: seleção de grandes cliques

Livros de fotografia
Foto da série de Hudson Garcia que é finalista do Sony Awards

Foi com um misto de surpresa e felicidade que Hudson Garcia recebeu o telefonema dos organizadores do prestigiado Sony World Photography Awards, comunicando que ele se encontra entre os finalistas da edição deste ano, na categoria profissional de natureza e vida selvagem.

Hudson é de Maringá (PR) e tem 33 anos de idade. “Comecei na fotografia em 1994, com quatorze anos, e desde então sempre estive envolvido com a fotografia da natureza”, afirma o paranaense, que participa do concurso pela segunda vez. “A série foi feita em Morretes (PR), na Serra do Mar, e são fotos que eu planejava fazer há muito tempo, mas somente no começo de 2012 terminei de ajustar meu equipamento voltado à fotografia de alta velocidade e pude conseguir o resultado desejado. Isso porque são fotos tecnicamente difíceis de se fazer, pois a ação se desenvolve muito rápido e aqueles animais são muito pequenos (alguns possuem apenas cerca de 10cm), mas consegui alcançar o resultado que sempre sonhei e mostrar como esses anfíbios são bonitos e
curiosos, além de muito importantes para o meio ambiente”, festeja Hudson, que fica na torcida para o seu nome aparecer também na relação dos vencedores do concurso, dia 25 de abril.

Se isso ocorrer, será mais uma confirmação do bom momento da fotografia de natureza brasileira, que teve ano passado o fotógrafo paulistano Luciano Candisani como um dos vencedores do importante Veolia Wildlife Photographer of the Year (e o gaúcho Zé Paiva como finalista). Alguns fatores contribuem para esse desempenho: a excelência dos profissionais, alguns cujo renome extrapola a competência de fotógrafo de natureza (caso do catarinense Araquém Alcântara), mas principalmente pelo vasto campo de experimentação que é o Brasil e sua biodiversidade.

Com base nisso, pedimos a alguns desses profissionais que escolhessem uma imagem representativa do seu portfolio para compartilhar com os leitores do Photo Channel, com comentários acerca do registro. Confira abaixo essa pequena galeria de grandes imagens de natureza. Começamos com Hudson Garcia:

“Selecionar apenas uma imagem é sempre uma tarefa difícil, mas gosto muito desta foto e acho que representa bem meu trabalho, pois me dedico muito à fotografia de alta velocidade e conseguir paralisar o salto de uma aranha do tamanho de um grão de arroz não foi uma tarefa simples. Além disso, acredito que a fotografia é uma importante ferramenta na conservação e principalmente conscientização ambiental e esse é um belo exemplo de um animal malvisto por muitas pessoas, mas que não representa nenhum perigo ao ser humano, muito pelo contrário: ao se alimentar de milhares de moscas e insetos por ano, presta ao homem um serviço no controle de pragas”, afirma Hudson.

 

ADRIANO GAMBARINI: “Dentre tantas fotos de vida selvagem, encaminho uma das aves mais ameaçadas do mundo, o raro pato-mergulhão. Durante quatro anos, produzi uma matéria para a National Geographic sobre essa espécie”, informa Adriano Gambarini, 43 anos de idade, fotógrafo paulistano da National Geographic Brasil que completou ano passado vinte anos de carreira. “Eu estava na região da Canastra fotografando para o meu primeiro livro quando soube do pato-mergulhão e as pesquisas que eles estavam começando a fazer. E aí entrei em contato com os pesquisadores e propus documentar o trabalho deles”, explica o fotógrafo, que chegou a ficar horas imóvel, camuflado no mato, para fotografar os bichos sem interferir em sua rotina. “Engraçado, porque a gente começa a ter uns insights. Diversas vezes vi, por exemplo, um casal tendo algumas atitudes diferentes. Aí eu tinha meio um feeling, assim: ‘eles vão voar’ ou ‘vão pousar ali’, por exemplo. Então me preparava para fotografar aquele instante. É lógico que muitas vezes eu errei, mas muitas vezes eu acertei também. É meio que o instante decisivo do Bresson, só que na natureza”.

 

FABIO COLOMBINI: “Considero esta imagem de um louva-a-deus comendo uma borboleta como uma das melhores que já fiz. Chamou-me a atenção a cena pelo brilho metálico prateado que refletia a asa da borboleta Agraulis vanillae. Aproximando-me um pouco mais, percebi o louva-a-deus, de cor e forma camuflada, que acabava de capturá-la. Estava ao lado de flores, local muito bem escolhido pelo predador para esperar sua vítima. É uma imagem que revela um drama da natureza, em que um belo ser chega ao fim de sua vida. Mas não se pode deixar de admirar a capacidade do louva-a-deus, sua visão fantástica, seu ataque rapidíssimo, sua estratégia de iniciar a comer pela cabeça – ele também está no seu direito de viver e reproduzir. Do ponto de vista fotográfico, a luz suave na maior parte da cena é agradável e ressalta bem as formas dos animais, e o fundo desfocado os destaca no primeiro plano. A composição equilibrada, não intencionalmente ocupando os terços da foto, a linha diagonal do corpo do louva-a-deus criando dinamismo, a surpresa do espectador que não consegue decifrar a cena de imediato, tudo colabora com o poder desta imagem. Foi obtida em Valparaiso, pequena cidade do interior de São Paulo, com câmera analógica Pentax e lente macro 100mm f.4”. Fabio Colombini, 48, natural de São Paulo, tem fotos publicadas em mais de 3700 livros. É fotógrafo de natureza há 25 anos e coleciona uma série de prêmios na categoria.

 

GEISER TRIVELATO: “Em outubro de 2006, enquanto conhecia pela primeira vez a Cachoeira do Fundão, na Serra da Canastra (MG), me deparei com a visão de um grande ninho construído no penhasco ao lado da cachoeira e acima de mim. Ninho sustentado pelos caules de um cacto. Observando com o binóculo, logo encontrei os donos do ninho, um casal da magnífica águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus). Como do local que me encontrava não era possível ver o interior do ninho, no dia seguinte, ainda de madrugada, saí em busca de um ponto onde fosse possível chegar por cima do penhasco. Foi uma longa busca: fui de carro até onde a estrada permitia, caminhei alguns quilômetros atravessando por dentro de um rio, subi e desci algumas encostas, até finalmente localizar o ninho da águia-chilena. E que visão privilegiada eu passei a ter do alto daquele penhasco! O ninho ficava logo abaixo, a uns 20 ou 30 metros no máximo, e, para minha sorte e também das águias, uma grande queimada que havia devastado o Parque Nacional da Serra da Canastra uma semana antes tinha queimado toda a vegetação ao redor do ninho, mas tinha preservado o pequeno filhote de águia-chilena, que podia ser visto dentro do seu lar e com toda a saúde possível. A queimada limpou todo o capim que existia ao redor do ninho e com isso minha visão do local logo acima era perfeita. Tão logo me posicionei para as fotos do filhote, o casal adulto de águias passou a sobrevoar baixo sobre mim. Vez ou outra vocalizavam e me olhavam de bem perto em voo baixo, mas em momento algum me ameaçaram tentando me atacar. Fiz fotos do jeito que gostaria daquela família. Com os adultos levando presas entre as garras para seu filhote inclusive! Pude ver codornas, morcegos e filhotes de outras aves sendo caçados e levados como alimento para a aguiazinha. Foi sem dúvidas um dos grandes momentos que vivi como fotógrafo de natureza e nunca mais vou esquecer os momentos que passei naquele incrível local ao lado daquela família de águias-chilenas”. Geiser Trivelato, 36, é mineiro de Jacutinga e, além de fotógrafo, é guia de observação de pássaros. Fotografa há treze anos, com fotos publicadas nas revistas National Geographic e Terra da Gente.

 

MARCELO KRAUSE: “O arquipélago de Revillagigedo fica a cerca de 400km a sudoeste do Cabo San Lucas, na costa do México. Esse conjunto de ilhas isoladas é famoso por ser um dos melhores lugares do mundo para se ver e fotografar raias mantas (Manta birostris). Estive lá há alguns anos com um grupo de fotógrafos dos EUA e Inglaterra. O objetivo da viagem era retornar com ótimas fotos das mantas. As mantas se aproximam das ilhas para passar por ‘estações de limpeza’, locais em que alguns peixes de recife se alimentam de parasitas na pele da manta, em uma relação de benefício mútuo. Logo no primeiro dia ancoramos em um famoso ponto de mergulho na Ilha Socorro, chamado ‘El Boiler’. O capitão deu o briefing de como iria ser o mergulho e explicou que, por ser um ponto com inúmeras ‘estações de limpeza’, com atividade intensa de raias mantas, passaríamos o dia inteiro ancorados no mesmo lugar, fazendo quatro mergulhos seguidos por lá. Na teoria, tudo muito bonito. Na prática, as coisas não aconteceram dessa forma. Ao final do terceiro mergulho do dia tínhamos avistado somente uma manta, que deu de cara com uma dúzia de fotógrafos afoitos, fez meia volta e foi embora. A tripulação só dizia que nunca tinham visto isso antes, que o normal era encontrar ao menos uma dezena de mantas ao longo do dia. O desânimo era total e a maioria já estava abrindo mão do quarto e último mergulho do dia. Eu também estava cansado, a água era muito fria e minha roupa de neoprene de anos de uso já não estava dando conta do recado. O capitão tinha explicado que a chance das mantas aparecerem nesse último mergulho eram mínimas. Estava tirando meu equipamento quando um dos fotógrafos mais experientes se aproximou e puxou conversa: ‘Vai pular esse último mergulho?’. Respondi que sim, que estava cansado e com frio, que tinha muita vontade de fazer as fotos mas, segundo o capitão, as chances eram muito pequenas. Então ele continuou: ‘Deixe-me contar uma piada famosa nos EUA: uma moça ia para a igreja todo dia e rezava para Deus que gostaria de ganhar na loteria. Sabia que a chance de ganhar era pequena, mas pedia para Deus ajudar. Passaram os anos, a moça, que agora já era uma senhora de idade avançada, continuava ainda no mesmo ritual. Deus então perdeu a paciência, e uma voz poderosa ecoou na igreja – Senhora! Por favor, vá em uma lotérica e faça um jogo!’ ‘Então’ – continuou ele – ‘da mesma forma que não se pode ganhar na loteria sem apostar, você não vai fazer uma foto da manta do teu chuveiro! Você tem que estar na água mergulhando para as coisas acontecerem’. Coloquei novamente o equipamento e fui para a água. Depois de 45 minutos de frio e nenhuma ação, duas mantas se aproximaram do agora já bem reduzido grupo de fotógrafos e consegui fazer algumas boas fotos, como esta acima. E desde esse dia tento maximizar o meu tempo no campo, e nunca fico em casa imaginando que as coisas não vão dar certo”. Marcelo Krause é paranaense de Curitiba, 39, e fotografa a natureza desde 1998, mas só passou a exercer essa função “full time” em 2011, quando largou a engenharia em favor da paixão pelas imagens. Em 2010, recebeu menção honrosa do Veolia Wildlife Photographer of the Year.

 

 ZÉ PAIVA: “Eu estava na Pedra da Baliza, uma pedra que fica praticamente na divisa entre Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí. Antigamente, era usada como uma referência para a localização dos viajantes. Viajava numa caminhonete do ICMBio, acompanhado pelo meu guia, o motorista da Estação Ecológica da Serra Geral, Hermílson. Era um fim de tarde, pouca luz já e um céu de chuva com nuvens carregadas. Caminhei em torno da pedra procurando o melhor ângulo e então pedi ao Hermílson que me trouxesse o tripé da caminhonete. Ele foi buscá-lo e na volta resolveu fazer um outro caminho até onde eu estava, passando pelo meio de uma vegetação do cerrado. De repente ouço um grito, viro para a direita e vejo Hermílson com uma cara de apavorado. ‘Olha Zé, eu não tenho medo de quase nada, mas se tem um bicho que eu respeito é cobra!’. Aí que eu entendi o motivo do grito: era uma cascavel bem avantajada, enrolada no chão, no meio da vegetação, e o Hermílson me disse que quase havia pisado em cima dela. ‘Bora fotografar a bicha então, rapaz!”. O Hermílson fez uma cara de quem não gostou muito da ideia, mas me acompanhou. Como a luz era escassa e eu queria usar uma tele 400mm, optei por usar a câmera no tripé, já que a serpente estava imóvel, e pedi para o Hermílson segurar um flash fora da câmera na contraluz. Claro que ele não quis chegar muito perto e talvez ainda estivesse tremendo um pouco, mas na foto isso não se percebe”. Zé Paiva, 51, é gaúcho de Porto Alegre, mas vive em Florianópolis (SC) desde 1985. É fotógrafo há 28 anos, tendo começado no jornal Zero Hora e depois migrado para a publicidade, encontrando seu lugar na fotografia de natureza. É autor de quatro livros e tem fotos na Coleção Pirelli-Masp de Fotografia.

Sobre o autor

Alcides Mafra

Jornalista e colaborador do iPhoto Channel (alcidesmafra@iphotochannel.com.br)

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