Entrevista Natureza

Adriano Gambarini, o homem das cavernas

A fotografia de cavernas não é uma especialidade muito popular no Brasil. Afinal, não é todo mundo que se habilita a ficar enfurnado embaixo de toneladas de pedra, no mais completo breu, desconfortável e encalorado, em busca de imagens que dificilmente consegue enxergar.

Adriano Gambarini é um desses poucos. Ou melhor, o único no país com um trabalho sistemático de documentação de nossas cavernas. Conhecimento que ele transformou no livro Cavernas no Brasil (Metalivros, 288 págs., R$ 130) no final do ano passado.

Paulistano, 43 anos de idade, fotógrafo da National Geographic Brasil, Adriano completou vinte anos de carreira. Formado em espeleologia e geologia, foi explorando cavernas que ele se aproximou da fotografia. Segundo diz, o livro é a concretização de uma ideia que teve lá no início, quando ainda estava na faculdade. “Um dia pensei: ‘Eu ainda vou fazer um livro de cavernas’. E durante todo esse tempo fui acumulando material, sem pressa”, afirma o autor de outros onze livros, que contou ao Photo Channel um pouco mais sobre o processo de execução do livro e também sobre essa exclusivíssima modalidade de fotografia de natureza. Acompanhe:

Você completou 20 anos de carreira. Como vê essa marca? Entendo esse tempo como uma entrega e dedicação absolutas a um trabalho que resolvi seguir. Larguei minha profissão de formação, meu trabalho como pesquisador, para me tornar fotógrafo. Desde então, vivo exclusivamente da fotografia, respiro isso 24 horas por dia, 365 dias por ano. Não é o tempo que define o que você faz, mas a forma como você interage com isso e o que você aprende com isso. Pensando dessa forma, vejo meu momento profissional como “sereno”, ao mesmo tempo em que a curiosidade pela vida é o que rege meu trabalho.

Documentar cavernas sempre foi uma prática no seu trabalho ou o livro foi um retorno a esse tema que, imagino, o interessa bastante? A formação em espeleologia e geologia foi o alicerce fundamental para eu conseguir fotografar cavernas do jeito que faço. Saber quando uma rocha reflete ou absorve luz, por exemplo, foi muito importante para eu chegar num equilíbrio de iluminação, principalmente porque sempre usei cromos, ou seja, eu pensava muito antes de clicar, estudava muito o ambiente. O livro foi a concretização de uma ideia que tive há 20 anos, quando ainda estava na USP. Um dia pensei: “Eu ainda vou fazer um livro de cavernas”. E durante todo esse tempo fui acumulando material, sem pressa. Lógico que houve uma época da minha vida em que me dediquei mais a outros projetos pessoais (nesses 20 anos que se passaram, publiquei onze livros de outros temas e centenas de matérias para revistas, e me tornei fotógrafo da National Geographic Brasil). Acompanhei expedições científicas na Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Pantanal, mas nunca me afastei totalmente da espeleologia. E sempre que chegava a alguma região, além de perguntar para os caboclos se havia onça ou algum tipo de macaco de meu interesse, eu indagava sobre a existência de cavernas. E foi dessa forma que acabei documentando algumas grutas na Amazônia bem desconhecidas.

Figura humana quase perdida entre as rochas, no canto esquerdo da imagem, dá uma ideia da dimensão desta caverna. Gambarini insere pessoas na composição para dar uma noção de escala

Em 2000 eu conversei com a Editora Metalivros e propus o tema, mas só agora foi publicado. Por que esse tempo todo? Porque eu acredito que existe um tempo de maturação para produzir um livro. É possível fazer um livro em um ano? É, mas fica uma publicação volátil, sem consistência. Caverna é um tema completamente diferente de qualquer outro ambiental. Existem dezenas de livros da Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica, mas não de cavernas, por um motivo muito simples: não basta um bom equipamento, tem que saber enxergar com pouca luz, tem que entender de espeleologia, ter intimidade com o assunto, estar acostumado com situações. Pode-se dizer que este é o primeiro livro de cavernas com enfoque fotográfico. Até hoje, só um livro foi publicado na década de 80, relançado em 2000, mas com enfoque mais técnico, científico. Outros livros menores, bem técnicos, foram publicados apenas para espeleólogos. Existem publicações científicas, teses de mestrado e doutorado, que recorri para fazer a pesquisa para o texto. Mas todos esses exemplos não têm um cunho fotográfico ou estético. A minha proposta com este livro foi mesclar a beleza cênica das cavernas, através de imagens bem produzidas, com um conteúdo informativo. Segundo o editor, este livro certamente se tornará referência bibliográfica. Quero atingir tanto o curioso no tema, o aventureiro que já foi numa caverna, o ecoturista, quanto os espeleólogos, exploradores e pesquisadores.

Você foi a campo exclusivamente para fotografar para o livro ou recorreu ao material de arquivo? Nos últimos três anos eu comecei a ir a campo para documentar para o livro, além de material para uma matéria para a National Geographic. Já estava sentindo que o material estava ficando maduro, e que a publicação não tardaria. Mas cerca de 80% do livro foi produzido com material de arquivo que acumulei nesses anos. No final de 2011 eu recebi a confirmação do patrocínio, e 2012 eu dediquei quase que exclusivamente para a finalização do texto e seleção das fotos.

O que pesou mais na produção das imagens do livro: o aspecto científico ou artístico? Eu coloquei um peso igual nos dois, apesar do aspecto artístico ser o grande diferencial deste livro. É um livro fotográfico, no final das contas. Além do que, ao longo desses anos eu aperfeiçoei muito a técnica para fotografar cavernas, buscando preferencialmente a parte estética. Obviamente, quando eu estava produzindo alguma foto e via algum detalhe de valor científico, eu inseria na imagem. Não consigo dissociar meu olhar, sempre vejo a caverna com os dois olhares (técnico e estético). O aspecto científico eu coloquei muito no texto, pois fui eu quem escreveu o livro. Mas, da mesma forma, com uma linguagem mais coloquial, quase literária. Acho importante isso, para que o tema atinja um público mais diversificado.

Como é a documentação de cavernas aqui no Brasil? Há muita gente atuando na área? Pode-se dizer que as cavernas do Brasil têm sido bem documentadas ou ainda é necessário avançar nesse aspecto? Não existe uma documentação profissional efetiva de cavernas, por um motivo simples: para se documentar bem uma caverna é preciso entender de cavernas. Com a era digital, muitos amadores estão se arriscando a fotografá-las, muitas pessoas surgiram desde então, divulgando suas fotos na internet. Mas na época do filme era raro os fotógrafos que se arriscavam no tema. Na realidade, dá pra dizer que eu sempre fui o único fotógrafo profissional com uma documentação sistemática do assunto. Além disso, as cavernas estão envoltas num sentimento que afugenta as pessoas, inclusive fotógrafos, que é o mito do lugar confinado, sem ar, que causa claustrofobia. No livro, minha intenção foi desmistificar isso, mostrando cavernas grandiosas, com cachoeiras e rios subterrâneos. Mas o fato é: precisa-se realmente gostar de cavernas, pois se trata de um ambiente que pode afugentar quem não está acostumado.

“As cavernas estão envoltas num sentimento que afugenta as pessoas, inclusive fotógrafos”

Do ponto de vista da técnica, o que é preciso para se fazer bem esse trabalho? Como é a sua rotina? É preciso ter paciência e não se importar em ficar horas parado num mesmo lugar, planejando uma única foto. É preciso aprender a enxergar com pouca luz e mesmo assim ter uma noção espacial do pouco que vê. Fotografia de cavernas é completamente diferente de fotografia de natureza. Não basta escolher a melhor hora do sol e ir para um lugar agradável, uma floresta, montanha ou praia. Algumas cavernas são inóspitas, de difícil acesso, apertadas, úmidas ao extremo. Outras são extremamente quentes, com ar confinado, cheiro forte. Já cheguei a ficar quatorze horas dentro de um único salão, e tirar apenas seis fotos, tal era a complexidade para andar e iluminar o lugar. Numa outra situação, fotografei um salão do tamanho proporcional a um campo de futebol. Dormi duas noites nessa caverna (sem sair), levei cerca de vinte quilos de equipamentos. Fiz apenas três fotos. Na Amazônia percorri horas de floresta (sem trilhas), guiado por um morador local, para se chegar numa caverna muito quente e com enormes colônias de morcegos e um cheiro muito forte das fezes. Foi realmente um trabalho insalubre. Detalhe: eu trabalhei com filmes, ou seja, não vi o resultado na hora. Só dias depois, quando voltei para São Paulo e revelei o filme.

Morcegos são uma companhia constante dos exploradores de cavernas

Eu invisto muito nas fotos dos grandes salões, são bem mais complicados! A minha rotina na hora de fotografar se resume em: ao chegar num grande salão, eu reconheço toda a sua área antes, caminhando nele por inteiro. Só assim eu tenho noção espacial e volumétrica do lugar. Procuro os lugares onde dispor os flashes, tento entender onde tais pontos de luz estão dispostos em relação à câmera (o que leva muito tempo, pois eu não sei exatamente onde a câmera está, tenho apenas noção da direção). Só depois de toda essa preparação, eu clico. Como demora muito tempo para montar essa parafernália de flashes, não dá para ficar repetindo muito, o tiro tem que ser certeiro. Outra coisa: não dá para fotografar grandes salões sozinho. Eu sempre tive a oportunidade de ter ajuda de muitos companheiros e espeleólogos. A fotografia de caverna é o resultado de um trabalho de equipe, sempre. Sou muito grato a todos que me ajudaram e por isso dediquei uma página para citar o nome de todos.

Há pouca iluminação nas locações, pouco conforto para se obter os cliques, enfim, que dificuldades a fotografia em cavernas impõe? Por outro lado, que satisfação esse exercício traz para você? Não há iluminação alguma. Todas as fotos do livro foram produzidas com iluminação de flashes, que eu disponibilizei dentro da caverna (exceto as fotos da entrada da caverna, nitidamente iluminadas por luz externa). Aí que está a complexidade do trabalho: diferentemente de um estúdio em que você usa luz de flash, mas enxerga o ambiente, em cavernas a escuridão é absoluta! A minha visão é restrita à área que a minha lanterna pessoal é capaz de iluminar (ou seja, muito pouco!). Resumindo, eu não vejo o lugar que estou fotografando! E como a maioria das fotos de grandes salões eu fiz com filmes, eu não via o resultado na hora! Então, se porventura algum canto da caverna estivesse com luz insuficiente, eu só perceberia depois que revelasse o filme. Entende a complexidade do assunto? E como isso difere de fotos de natureza de modo geral?As dificuldades estão inerentes a se trabalhar num ambiente 100% escuro, e você ter que se virar com condições mínimas. O que dizer desse trabalho? Me desafia ao mesmo tempo em que me acalma. Reproduzir a dimensão e tridimensionalidade da caverna numa foto é algo muito prazeroso! Dar o devido valor àquele lugar é fantástico!

E qual a sua receita para se fazer boas fotografias em caverna? O que o fotógrafo deve levar em conta, como deve proceder e o que evitar? Paciência e gostar de caverna. Conhecimento aprofundado de técnicas de iluminação (principalmente para grandes salões). Não fazer aquilo por dinheiro, porque simplesmente não dá dinheiro. Saber onde está pisando e o porquê de estar ali! Proceder com respeito à caverna. Evitar pressa, desatenção, descuido, aprender a enxergar pouco. E o principal (mas não restrito apenas à fotografia de cavernas): ser fotógrafo é se entregar ao momento do clique, sem uma segunda intenção. Tanta gente fotografa pensando em concursos, prêmios… pra quê? Simplesmente não sabemos se haverá esse momento posterior em que a foto será usada para alguma coisa. Temos que fotografar da mesma forma como respiramos.

 


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Alcides Mafra

Jornalista e colaborador do iPhoto Channel (alcidesmafra@iphotochannel.com.br)

1 comentário

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  • muitas vezes ,so agora me despertou um centimento
    de amor por estas obras de arte escavadas nas prufundesa da terra brasileira.parabens
    goiania 9 6 14 brasil

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