Nem tudo são amenidades no mundo das plataformas de captura digital. Sim, iphones e ipads servem para o registro banal do cotidiano, num clica-e-posta interminável que congrega adolescentes e adultos, o mais novo apêndice indispensável das relações sociais. Mas também dá para levar muito a sério as capacidades de dispositivos que têm como principal virtude a discrição.
Entre os que se beneficiam desses atributos – seja para pesquisa, expressão artÃstica ou mesmo trabalhos comissionados – está o paranaense Roberto Svolenski. Professor da área de comunicação social, 41 anos de idade, natural de Curitiba, Roberto é egresso do vÃdeo – já realizou documentários e participou de festivais – e há algum tempo vem colecionando imagens com seu iphone.
“Desde quando estudei cinema e artes visuais, a imagem sempre me fascinou, ou seja, sempre gostei de produzir imagens usando os recursos que estavam disponÃveis para mim no momento. Uma vez que produzir filmes em pelÃcula ainda era muito caro, optei por trabalhar com o vÃdeo, por ser muito mais em conta, e isso fez com que eu me interessasse por essas imagens muitas vezes ‘descartadas’, por serem consideradas ruins para a reprodução em uma tela grandeâ€, conta, acrescentando que começou a praticar fotografia pelo que ela tem de oposto ao vÃdeo: o fato de a imagem se apresentar estática e, com isso, cativar a atenção do espectador em direção aos seus detalhes.
“Dentro desse estudo, comecei a produzir e analisar o impacto que as imagens digitais têm sobre o nosso dia a dia, principalmente com a facilidade de acesso a dispositivos portáteis para fazer esse registroâ€, segue explicando. A razão, naturalmente, está no fato de que um celular com câmera está sempre à mão, é pequeno e fácil de carregar – e não parece um intruso em nenhuma situação. É perfeito para a matéria de interesse do curitibano: o cotidiano, que, para ele, está repleto de pequenas belezas que costumamos não dar a devida atenção. “Um processo de significação é construÃdo a partir do momento em que re-enquadramos uma determinada cena. Uma parte pelo todoâ€, diz. Suas capturas são apresentadas em preto e branco – uma referência ao Expressionismo – e apenas retocadas com os aplicativos nativos do celular. Completa seu instrumental um jogo de quatro lentes próprias para aparelhos celulares. “Essas lentes foram adquiridas quando percebi a necessidade de usar adaptadores para a câmera fotográfica do iPhone 5. Usava outro celular, porém sem o resultado que gostaria de obterâ€, informa.

O professor argumenta que o processo, para ser válido, precisa levar em conta as especificidades técnicas de cada suporte. Ou seja, não dá para usar um iphone como se fosse uma câmera DSLR: “É como o vÃdeo e o cinema. Não posso utilizar um suporte como o vÃdeo para registrar algo que somente a pelÃcula poderá fazer, mesmo sabendo que, com a tecnologia, o vÃdeo se aproximou do cinema. Talvez devamos estabelecer categorias e aceitar que determinadas imagens registradas com celular podem ser tão boas quanto as captadas por equipamentos profissionaisâ€, propõe.
Apesar disso, ele observa certa resistência à sua opção técnica, evidenciada pela dificuldade em arranjar locais para expor: “Consideram que a fotografia registrada usando esse dispositivo não é digna de ser exposta por não ter sido utilizado equipamento profissional. Mas em todos os momentos esbarramos com esse tipo de questionamento e devemos entender e buscar um diferencial para apresentar ao público essa forma de ver e utilizar esse objeto do nosso cotidianoâ€, relativiza. Seus planos também incluem publicar as imagens no formato de fotolivro: “Como as imagens são produzidas a partir de um celular, a impressão dessas fotos sofre um pouco com a qualidade. No momento, estou testando todas as possibilidades de impressão, envolvendo tamanho e suporte para uma exposição e também em processo de desenvolvimento de um e-book com essas imagens, pois, se o suporte está sendo o digital, nada melhor do que a divulgação nesse processoâ€.
Como beneficiário desse expediente, o curitibano não vê a banalização do ato de fotografar, promovida pelos dispositivos móveis, como algo ruim. Ele assume isso como um necessário registro dos nossos dias que será legado à posteridade. “Mas também acredito que é possÃvel estudar, analisar e aplicar um conceito criativo sobre esse tipo de dispositivo que utilizamos no cotidianoâ€, ressalva, destacando entre seus referenciais expoentes da fotografia tradicional como Cartier-Bresson e Diane Arbus. “Percebo que é necessário um conceito e um foco nos objetivos traçados ao longo desse estudo. Quero dizer, tudo o que produzo não é resultado apenas de um determinado perÃodo de estudo, mas sim de todo um histórico pessoal e visual que carrego e transformo em imagens, usando o celular como extensão do meu olharâ€, avalia.








