Autoral Inspiração

Imagens que exorcizam a dor

Foto: Luiza Prado
Livros de fotografia

Foto: Luiza Prado

Luiza Prado é jovem. Tem apenas 23 anos de idade. Porém, carrega cicatrizes. Um passado caótico, como ela descreve sua vida no interior paulista – Luiza nasceu em Guaratinguetá. As dores, porém, ela converteu em força criativa. Uma força que desemboca em imagens. Embora fotógrafa recente, sua produção é vigorosa. Marca talvez de um amadurecimento prematuro.

“Tive contato muito cedo com coisas negativas e pesadas, então cresci muito introspectiva e minha forma de gritar era através de imagens”, diz Luiza, sem, no entanto, especificar a natureza dessas experiências. De qualquer modo, atribui a elas importância, pois as converteu em matéria-prima para sua arte.

Luiza deixou Guaratinguetá em 2009, se mudou para São Paulo. Seu objetivo era seguir carreira no cinema. Uma decisão que não contou com a aprovação dos pais. Para viver, arranjou um emprego como designer. Uma opção desagradável, mas necessária. O dinheiro era curto, mesmo assim, no final de 2010, ela resolveu extravasar: gastou o salário do mês na compra de uma câmera fotográfica.

Foto: Luiza Prado

O primeiro contato foi intuitivo, o equipamento era novidade. Porém, a jovem contava com um bom background: trouxe da infância uma relação estreita com a pintura e os movimentos artísticos. Especialmente o barroco e o surrealismo. No final do ano passado, ela enfim deixou a criação publicitária e fez um intensivo de direção de fotografia para cinema (“foi meu divisor de águas”). Desde janeiro, trabalha como fotógrafa, além de assistente de cinema.

“No início da minha carreira eu era bem imatura (mais que agora), tanto esteticamente como na forma de trabalhar. Eu não tinha controle dos meus sentimentos, eles me tinham nas mãos e eu revivia todos eles quando fazia uma foto, me sentia mal e entrava mais uma vez em depressão. Conforme o tempo passou, eu consegui administrar isso melhor, não deixando menos intensa a foto, mas sabendo reprocessar tudo e até mesmo satirizar situações que um dia foram difíceis”, explica a fotógrafa o seu complexo processo criativo. “Num certo momento”, completa, “a fotografia se tornou uma grande ferramenta no meu tratamento para ser ‘uma pessoa melhor’”.

Nesse curto tempo, Luiza desenvolveu as séries experimentais Metamorphosis (“a alma como objeto e a alma como desconfiguração”) e Recrutadas Forças Maltradas (“um diálogo da esquizofrenia com o imaginário são”) e colaborou com projetos que envolveram outras linguagens. No momento, está trabalhando num ensaio que envolve fotografia e um conceito da psicologia chamado EMDR (sigla em inglês para dessensibilização e reprocessamento através de movimentos oculares).

Foto: Luiza Prado

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“Acredito de modo geral na fotografia aplicada em novas mídias e processos alternativos, tanto em filme quanto em digital, e é isso que desenvolvo hoje. Sou bem inquieta na minha criação e gosto de descobrir o que a fotografia pode me mostrar de novo, quais os próximos caminhos”, afirma. Quanto ao resultado desse processo, em regra sombrio, ela não sabe bem como definir. O que sabe é que são reflexos de seu mundo imaginado, cuja beleza nem sempre é compartilhada por quem vê.

Foto: Luiza Prado
Luiza Prado: “Minha forma de gritar era através de imagens” (foto: autorretrato)

“O meu bonito não é bonito pra todo mundo, mas me sinto mais intensa do que perturbada. Acho curioso e gosto de ouvir pré-conceitos sobre uma foto, é divertido ver como aquilo atingiu alguém, o que sentiu e entendeu e a partir disso analiso até que ponto um conceito meu atingiu alguém de uma realidade totalmente diferente”, analisa.

No aspecto comercial, Luiza é agenciada por uma produtora de artistas. Tem conseguido espaço em lojas de artes e participa de exposições. “Estou engatinhando no mercado da arte. Tudo começou a dar certo agora e estou muito feliz”, comemora a artista, que tem alguns projetos na gaveta exigindo ver a luz do dia e outros tantos por fazer. Um início bastante promissor, considerando que ela não contava se tornar fotógrafa, suspira mesmo é pelo cinema: “A fotografia eu acredito que seja um processo que estou deixando ser levada e ainda não sei onde vou chegar”. Que seja longe, Luiza.

Foto: Luiza Prado

Sobre o autor

Alcides Mafra

Jornalista e colaborador do iPhoto Channel (alcidesmafra@iphotochannel.com.br)

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