Ensaios de casais Nu e Sensual

Ensaio de casais: intimidade a três

Trabalho do fotógrafo Ale Coelho, da Revista Dénudé, que adota o estilo "Boudoir noir"

Primeiro foram elas. Num impulso de liberalização, exibicionismo – por que não? – ou descomplexada aceitação do próprio corpo, mulheres do dia a dia – leia-se: que não ganham a vida exibindo as curvas da moda – começaram a se despir para as lentes de fotógrafos profissionais, tornando os ensaios de nu e sensualidade uma das atividades mais procuradas da fotografia comercial.

O impulso seguinte foi o de convidar namorados ou maridos para a próxima sessão, e realizar uma espécie de brincadeira erótico-romântica para marcar os melhores dias da relação. Um ensaio íntimo de casal. Bom para os fotógrafos, que ganharam um novo mercado para explorar, e divertido para os casais que se permitem umas picardias diante da câmera de um quase desconhecido.

Denise Ariño, 48, é uma dessas ousadas. Em 2009, fez o primeiro ensaio sensual. Era um presente para o aniversário do marido, Mario Ariño, de 52. “Como ele sempre gostou de revistas masculinas, por que não lhe dar de presente uma revista comigo na capa?”, raciocinou a paulistana. No ano seguinte, para o aniversário de trinta anos de vida comum, eles planejaram o ensaio a dois, uma experiência que ela achou “sexy e divertida”: “Acho que fazer essas fotos sensuais juntos dá um ‘up’ na vida sexual do casal”. Ambos gostaram tanto do resultado que mostraram as fotos para os filhos (são pais de um casal adulto) e amigos próximos. “Todos acharam a ideia muito legal, adoraram e elogiaram as fotos”, assegura Denise.

As responsáveis pelo ensaio foram as paulistanas Darcy Toledo e Jane Walter, da Agência Nude. As amigas ganharam destaque no meio após servirem de modelo para a personagem fotógrafa da novela “Viver a vida”, em 2009, que fez crescer a procura por ensaios sensuais (tema que retornou ao horário nobre da Globo, desta vez em “Em família”). Seu envolvimento com ensaios de casais veio na sequência dessa onda de exposição. “Muitas clientes comentavam que gostariam de fotografar ao lado dos companheiros, como uma forma de apimentar a relação. Começamos a propor que o último set do ensaio sensual feminino fosse dedicado ao casal. Alguns clientes, no entanto, gostavam tanto do resultado que voltaram para fazer um ensaio completo a dois”, conta Jane.

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Agência Nude, de Darcy Toledo e Jane Walter,
aposta na “experiência sensual para casais”

Com quase oito anos de atuação no ramo, a agência criou um produto chamado “experiência sensual para casais”: “Montamos três sets, sendo que o terceiro é o mais apimentado deles. Por essa razão, o ensaio dá direito a uma diária na locação escolhida. Assim, podemos nos retirar do local para que os clientes possam curtir, até o dia seguinte, essa aventura a sós”, explica Darcy. As 24 melhores imagens do ensaio são reunidas num livro “Top Secret”, uma recordação elegante da sessão. “Além disso, os dois recebem um DVD com todas as imagens do ensaio”, acrescenta.

Juh Moraes e Viviane Rodrigues, da Fotografia Orgânica, de Curitiba (PR), fotografam a intimidade dos casais há quinze anos, o que demonstra que o serviço não é novidade, embora tenha reaparecido como se fosse, com o nome de “morning after” – o ensaio de casal feito logo após a lua de mel. Assim como suas colegas paulistanas, elas procuram passar ao largo do modismo, adotando uma abordagem que denominam simplesmente de fotografia para adultos.

É uma prática fotográfica que fala, no fundo, da escolha de alguém em se desnudar, e isso vai além das roupas. É um exercício de liberdade, de confiança, de respeito, de autoconhecimento, de autoafirmação, de amor. Coisa de gente adulta”, conceitua Viviane, jornalista e fotógrafa natural de Florianópolis (SC), que há vinte anos pesquisa a relação entre corpo e imagem e propõe uma perspectiva mais filosófica ao seu campo de estudo. Ela e Juh oferecem aos casais – heterossexuais ou não, diga-se – uma estética fine art, referenciada pelo trabalho de Robert Mapplethorpe, Helmut Newton, Francesca Woodman, entre outros: “Nossa abordagem envolve a experiência da intimidade, a materialização e o estudo da forma e da beleza, longe do sentido puramente estético”, descreve.

Viviane o conservador mercado curitibano ainda um pouco reticente à fotografia de adultos. O tempo deve se encarregar de quebrar o gelo, ela espera. Situação diferente vivem Mel Masoni e Ale Coelho no Rio de Janeiro. “A cada mês aumenta a procura pelo Boudoir noir, e estamos sempre trabalhando para divulgar esse ensaio ainda mais”, diz a diretora de arte da Revista Dénudé, agência que trabalha não apenas na capital fluminense, mas em todo o Brasil, e já tem planos de internacionalizar o serviço.

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Para a Fotografia Orgânica de Juh Moraes e Viviane Rodrigues,
a fotografia de casais é apenas “fotografia de adultos”

Mel é carioca e o fotógrafo Ale é paulistano. Eles montaram o negócio há pouco mais de um ano. Realizam ensaios com mulheres e casais e os entregam na forma de uma revista de moda e arte. “A primeira experiência [com casais] foi em 2013, logo após o ‘nascimento’ da Revista Dénudé. Um casal do Rio de Janeiro nos procurou porque uma amiga havia feito um ensaio boudoir e eles ficaram encantados quando viram as fotos dela na revista. Esse casal havia acabado de se casar e a intenção deles era justamente guardar, em imagens, toda a lembrança daquele momento especial que estavam vivendo”, lembra Mel, que esclarece o conceito embutido na ideia de Boudoir noir: “As fotos de Boudoir noir são muito utilizadas fora do Brasil como fotos de boudoir em preto e branco. A palavra ‘noir’, no entanto, que surgiu no cinema na década de 40, caracterizava o alto-contraste, o expressionismo. Adaptamos a palavra ‘noir’ no boudoir porque nos remete aos relacionamentos: pessoas comuns e suas histórias, seus dramas, seu psicológico, suas paixões. Assim surgiu o Boudoir noir, ou fotos de casais”.

Para ela, a razão pela qual as pessoas se permitem fotografar de um modo mais íntimo é variada: “Já fotografamos recém-casados que estão apaixonados e querem eternizar todo esse sentimento, casais maduros que conhecem muito bem um ao outro e querem erotizar a relação, e até um casal que estava prestes a se divorciar, que usou o Boudoir noir como um elemento de reaproximação”. Jane Walter, que coleciona com Darcy Toledo histórias parecidas, considera essa diversidade de propósitos e perfis de casais motivadora: “Nosso trabalho não é engessado, padronizado. A partir de cada história, buscamos algo único, que fará a sessão de fotos ser marcante para cada casal”, afirma.

Esse algo único pode ser uma sensualidade suave ou algo mais apimentado. “Isso não nos deixa nem um pouco constrangidos. Quem dita as regras do ensaio é o casal. Suave ou erótico, o importante é conseguir captar a essência do casal, sem tabus”, diz Mel.

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Mel Masoni: Quem dita a “temperatura” do ensaio é o casal

É essencial conversar com o cliente e perceber qual o nível de intimidade do casal, os limites a que se permitirão. No entanto, há que se estar preparado porque os limites anteriormente listados podem ser ampliados naturalmente pelo envolvimento do casal na materialização do ensaio. Isso também é interessante. Como nossa postura de pesquisa e estudo de um corpo que é livre e autônomo, encaramos tudo com naturalidade”, observa Viviane, que compara a fotografia erótica a um prato exótico: prova quem for mais ousado.

Ousadia que pode chegar às vias de fato. No caso de José Emylsem Ricci Junior, o Kiko, que lida com um tipo específico de casais, isso de fato ocorre. O paulistano de 50 anos é engenheiro eletrônico e empresário, e fotografa para ganhar um extra. Ex-produtor de filmes pornô, tem um estúdio onde faz fotos e vídeos sensuais para diversos públicos. Entre seus clientes estão casais que praticam o swing e querem ser fotografados tendo relações. Tudo bem: “Para quem já foi produtor de filme pornô, fazer essas fotos é moleza”, garante. Kiko, porém, ressalta o valor artístico do seu trabalho: “A diferença entre o erótico e o pornográfico está na maneira como se fotografa e também nos olhos de quem está vendo as fotos. Um material deixa de ser erótico e passa a ser pornográfico quando é obtido sem arte, sem técnica, sem sensualidade. Porém, dependendo de quem esteja vendo uma determinada foto, irá interpretá-la como pornográfica mesmo sendo apenas erótica”, argumenta.

Viviane e Juh, cujo trabalho lida também com o conceito de “softcore” – que flerta com o pornô – costumam usar uma frase do escritor francês André Breton para resolver a questão: “Pornográfico é como vemos o erotismo dos outros”. “O que há para ser dito é que todos os ensaios são discutidos anteriormente com o casal e as opções são feitas de acordo com o grau de intimidade e liberdade que o casal pretende construir em frente às câmeras. A dica para realizar ensaios onde pode imperar o nu e o erotismo são sempre as mesmas de outros ensaios: se preparar tecnicamente e intelectualmente; estar na companhia da espontaneidade para produzir algo que toque os sentidos alheios; experimentar”, conclui Viviane.

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Para Kiko, que já produziu pornôs, dirigir sessões mais picantes é “moleza”

Dicas para construir um ensaio íntimo de casais:

PRELIMINARES
1 (28)Antes de qualquer sessão, conhecemos o casal pessoalmente, bebemos um café juntos, conversamos, para que eles possam se sentir à vontade no dia das fotos. Preferimos trabalhar em locação que seja escolhida pelo casal, de preferência a própria casa deles, ou algum outro lugar que seja familiar a eles. Isso é importante para que possam se sentir ainda mais à vontade. Montamos todo o set e vamos trabalhando. Nós temos uma sintonia excelente, o que reflete em nosso trabalho e deixa o casal tranquilo. Após a sessão, escolhemos as melhores fotos e enviamos para que o casal possa escolher as que querem ver impressas na Revista Dénudé que receberão em casa. Sempre que possível, gostamos de entregar a revista pronta pessoalmente, só para ver a reação de surpresa e alegria na cara deles!” (Mel Masoni e Ale Coelho)

Dirijo os ensaios sempre visando criar um ambiente e clima de acordo com quem estou fotografando. Procuro servir ao casal (ou à cliente) a bebida que ele desejar, coloco para tocar as músicas que gostarem e vou conversando para deixar a pessoa (ou o casal) bem descontraída, de forma que as fotos saiam com as expressões naturais, sem tensão, sem marcas de expressão indesejáveis” (Kiko)
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Há, geralmente, para muita gente, o impacto que a nudez traz. Passar confiança e profissionalismo e dosar com bom humor é essencial” (Viviane Rodrigues)

A sintonia com os casais é essencial, conhecê-los antes do ensaio, saber as preferências, do estilo musical a lugares que costumam frequentar. Isso se faz necessário para poder traçar um perfil de personalidade e, com esses dados, poder dosar o início do ensaio, porque depois dos primeiros trinta minutos, o próprio casal já tem uma certa dose de ousadia e confiança na equipe” (Ale Coelho)

Conversamos sempre com o casal antes das fotos para saber por que chegaram a nós e para que contem um pouco sobre o relacionamento. No dia do ensaio, criamos um ambiente descontraído, mas extremamente profissional, o que traz segurança aos dois. Montamos um roteiro com antecedência, buscando explorar a locação escolhida, mostrando uma unidade com o figurino e a produção. Mas também permitimos cliques inspirados pelo momento, buscando um olhar de cumplicidade, ressaltando a paixão e o amor entre os dois. A timidez é apenas inicial e, à medida que o casal absorve o processo, conseguimos belas imagens. Temos o cuidado também em permitir que o homem chegue à locação somente quando a mulher estiver produzida, maquiada e com o primeiro look, assim, usamos toda a sensualidade da própria companheira para integrá-lo ao ensaio” (Darcy Toledo)

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DIREÇÃO
De fato os homens têm uma resistência maior, por isso a importância de nos conhecermos antes. Conversando com o fotógrafo, eles se sentem aptos a confiarem sua intimidade. As mulheres, mesmo que sutilmente, é quem vão levando o ensaio, de forma geral. Os homens vão até onde elas querem” (Mel Masoni)

Sempre sorrir, falar calmo, o clima sempre tem que ser de descontração e por que não? – de alegria” (Ale Coelho)

eXtimidade-8Claro que cada casal tem uma energia, um grau de intimidade que pode mudar a forma de registrar a interação. Nosso papel é promover uma atmosfera de harmonia. Somos fotógrafas e nosso olhar não julga, não opina, não constrange, o que é básico em um olhar profissional. Pesquisar o corpo, a imagem, a sexualidade, nos ajudou muito a realizar os ensaios com segurança, também, é interessante dizer. É um trabalho que demanda paciência, preparo técnico, jogo de cintura, e entender, principalmente, os mecanismos do corpo e do erotismo e trabalhá-los sem ansiedade, distante do senso comum” (Viviane Rodrigues)

Deixar o casal seguir o próprio ritmo. Nunca exigir uma pose, mas sim sugerir, é uma boa para se ter uma ideia do quanto eles pretendem ousar” (Ale Coelho)

O ENSAIO
Procurar adotar o estilo mais clean possível, pouco equipamento, tentar usar e abusar da luz natural ou algum tipo de iluminação de luz contínua, para que o ensaio não fique com cara de editorial. A luz permanentemente dosada evita a tensão de estarem sendo fotografados. Dessa maneira, o casal fica à vontade para ir fazendo movimentos, poses com um pouco de direção” (Ale Coelho)

Entenda que você está fotografando uma história de vida. Tenha todo o respeito e carinho por quem será retratado” (Darcy Toledo)

EQUIPAMENTO
Sempre é bom ter duas opções de objetiva, pois nunca se sabe o que se pode improvisar no ambiente. Normalmente, utilizamos 16mm, 24-70mm e 70-200mm, de preferência o mais clara possível, devido à luminosidade com que às vezes se pode deparar” (Ale Coelho)

Sobre o autor

Alcides Mafra

Alcides Mafra

Jornalista e colaborador do iPhoto Channel (alcidesmafra@iphotochannel.com.br)

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