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Três formas de ver a Lomografia

congresso de fotografia

Lomografia. Alguns amam, outros odeiam. Muitos sequer amam ou odeiam, sem se dar ao trabalho de tentar entender o que é isso, e com isso perdem oportunidades.

Existem pelo menos três formas de se ver lomografia: como a Lomography vê, como a maioria dos praticantes dessa técnica veem, e como um acadêmico veria. Convido você a passear comigo por essas três visões e, com isso, ampliar um pouquinho seu ponto de vista.

A lomografia pela Lomography – Acredito que você, que está lendo este texto, já conheça ou tenha ouvido falar da Lomography, a empresa austríaca que, inspirada em uma experiência de seus fundadores com uma câmera fabricada na antiga União Soviética, criou uma empresa de fabricação de câmeras, ou melhor, de experiências fotográficas.

Contar a história da Lomography rende, por si só, um artigo inteiro, ou até mais de um. Aliás, o que não falta por aí é gente escrevendo sobre ela. O problema é que a maioria delas está errada. Por isso, se você ainda não os conhece, visite esta página, da própria empresa, e entenda como ela surgiu.

Fundadores da Lomography em 1991

Mas vamos ao que interessa. Para a Lomography, lomografia – ou Lomografia, com inicial maiúscula – é a estética criada e difundida pela empresa através do uso das câmeras e acessórios produzidos por eles. É uma marca registrada, mas ao mesmo tempo um estilo de vida vendido pela empresa. Algo libertador, mas que conecta todos os seus usuários à empresa. Existem regras, existem tutoriais, existem dicas, existe uma comunidade, hábitos, fãs. Tudo ligado à Lomography. E, não se enganem. Eles exercem pulso firme em quem tenta usar a palavra “lomografia” para fins lucrativos sem a devida autorização. Escolas e publicações já tiveram que se entender com seus advogados.

A lomografia pelos seus praticantes – Pergunte a um jovem que se diz lomógrafo se todas as câmeras dele são da Lomography e provavelmente receberá uma negativa como resposta. Por mais que todos, ou a maioria dos ditos lomógrafos, admirem e desejem câmeras da empresa austríaca, muitos deles praticam a lomografia usando poucos ou até nenhum dos equipamentos, filmes e acessórios vendidos pela empresa. Para eles, lomografia é uma estética, uma forma de pensar fotografia, de se comunicar com amigos, de pertencer a um grupo. Lomografia, para o lomógrafo, é uma tribo, uma forma de se expressar pouco ortodoxa e libertadora, onde erros são acertos, e acertos são caretas. Você não faz lomografia. Você cria lomografia com sua câmera, seja ela qual for, desde que ela te entregue os “efeitos” que são a marca registrada da estética (um quê de vintage com fotografia experimental low-fi).

Primeira exposição de lomografias em Moscou, em 1994

A lomografia por um acadêmico – Eu não sou acadêmico, mas vou fingir que sou, porque conheço muitos. E o que esses muitos têm em comum é a capacidade de olhar a coisa de fora, de cima. E olhando a lomografia de fora, de cima, eu diria que esse acadêmico hipotético que inventei diria que a lomografia é uma febre – não no sentido de “modinha”, mas no sentido de marca de uma geração, o reflexo de uma sociedade. Daqui a uns cinquenta anos, acredito que um acadêmico – falando sobre os movimentos fotográficos de nossa era – dirá que a lomografia foi um movimento anárquico – lançado, ou compilado e catalizado, por uma empresa, mas não gerido ou controlado por ela – que encontrou abrigo em uma parcela de uma geração digital, que nasceu sem conhecer a fotografia com filme, mas que – inquieta – buscava ferramentas artesanais para se expressar. Em uma época em que tudo era eletrônico, digital, virtual, a produção de uma imagem através de um processo primordialmente tátil e físico, mecânico e artesanal, a fotografia analógica como hobby, tendo como porta de entrada a lomografia, mas não se limitando a ela, encontrou seu lugar, e marcou uma geração. Esse mesmo acadêmico dirá que muitos foram os críticos desse movimento, e que muitos, devido ao preconceito, perderam uma excelente oportunidade de se conectar a essa nova geração de futuros fotógrafos, clientes, contratantes e, com isso, em um processo de anacronismo estético, se entregaram a um ostracismo criativo onde cada coisa “nova” era vista pelo novo público como “velha”.

Bom. Tendo falado, não por um, mas por três, deixo aqui este artigo como forma de provocar quem quiser ser provocado a dar alguns minutos de sua atenção para esse tópico, empresa, movimento, ou tudo isso junto. Conhecer e ter opinião é um excelente negócio. Não conhecer, negligenciar e menosprezar, a história nos mostra que nem sempre o é.

 

 

ANDRÉ CORRÊA tem 38 anos e é fotógrafo amador há mais de vinte. Formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense, trabalha com marketing e criou em 2011 o site Queimando Filme para apoiar os hobbistas, iniciantes ou experientes, apaixonados pela fotografia analógica. Hoje é professor de fotografia analógica no IIF, tendo ministrado mais de dez cursos em todo o país.

 

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Sobre o autor

André Corrêa

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