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O ver fotográfico, por Marcello Sokal

O que é ver/enxergar?

Enxergar, olhar, observar, mirar, avistar, contemplar, distinguir, divisar, entrever, descortinar.

Palavras sinônimas, mas com significados diferentes. Como associamos isso em fotografia?

Conceitualmente falando, não é difícil entender o ver fotográfico, eu pelo menos não acho que seja, mas falando de maneira prática traz seus desafios.

Como reagir a uma cena, um objeto, uma pessoa ou uma paisagem? O que incluir, o que excluir, o que eu quero comunicar (e influenciar, de alguma maneira) a quem vir a obra resultante? Isso é uma coisa altamente pessoal.

O que eu quero “vender” através de minha captura?

É possível trazer respostas concretas a um conceito subjetivo ao analisar e explorar o que temos em nossa frente, pela sua significância, substância, forma, textura e variação entre tons.

Assim podemos ensinar nossos olhos a buscar e explorar novas perspectivas.

É como dizem: A verdadeira viagem da descoberta consiste em não buscar novas paisagens, mas sim ter novos olhos…

Foto: Marcello Sokal

Olhando – e vendo

Olhando, simplesmente olhando – à frente, atrás, acima, abaixo, perto, longe, em direções diversas – a partir de onde estamos nos permite identificar novas possibilidades, pontos e sequências que podem ser desenvolvidas, formando uma linha coesa – especialmente importante na realização de uma reportagem foto jornalística, abordando um tema específico.

Fazer uma leitura 360° a partir do ponto que se encontra pode ser muito interessante, para registro de objetos, situações e momentos diferenciados.

Invista certo tempo para ver o que encontra, faça análises mais aprofundadas.

Desenvolva um exercício de criatividade, tentando enxergar como o que você encontra pode ser registrado de uma maneira completamente nova. Sim porque olhar nem sempre quer dizer ver…

Faça uma pesquisa prévia e como o que você vai registrar pode ser abordado de uma nova maneira, em um maior envolvimento.

Foto: Marcello Sokal

O ver e o equipamento

Por vezes é a menor parte da equação.

Em que pese as imensas possibilidades criativas que uma câmera nos abre ela será só um instrumento, que vai obedecer nossa visão, nossa abordagem.

O equipamento pode e deve ser explorado, pois seu uso nos possibilita registros diferentes do que conseguimos a olho nu, como, por exemplo, nas exposições muito longas ou muito curtas.

Todo equipamento reflete na captura a intenção do fotógrafo, e essa intenção vai impactar de maneira mais ou menos acentuada o expectador (até dentro de interesses específicos dele).

A categoria – compacta, bridge, DSLR, Mirrorless – não importa. Importa o que registram e como registram. Naturalmente ter a opção de uso de objetivas específicas, como as de grande abertura máxima, por exemplo, ajuda a comunicar, enfatizar, uma situação, momento ou característica. Mas isso de nada vai valer se a imagem final não trouxer uma mensagem, gerar um impacto. O que adianta uma imagem lindamente desfocada em termos de fundo se a mesma é banal?

Obviamente que quando se pensa num projeto autoral, de exposição fotográfica ou outras utilizações que pedem maior tamanho de ampliação e qualidade na imagem, devemos optar pelas DSLR ou Mirrorless – pelos tamanhos de sensor – mas aí também entra a questão do que foi registrado e não a qualidade em si do arquivo (maior, mais pesado e com maior capacidade de utilização em mídias diversas).

Foto: Marcello Sokal

Pós-produção e “realidade”

As imagens digitais podem, devem e precisam (no caso de quem só fotografa em RAW) passar por tratamento, edição pós-produção. Quem determina o grau desse tratamento é o fotógrafo, sua intenção e muitas vezes o público a quem a produção se destina.

As imagens fotográficas desde os primórdios da fotografia passam por todo tipo de manipulação e modificação – no início em laboratório químico, hoje em dia com base eletrônica – mas sempre visando algum tipo de correção ou aperfeiçoamento, depois do disparo inicial.

Essas modificações podem ser motivadas por fatores estéticos, comerciais ou políticos, mas sempre tendo em mente que o exagero pode levar à descrédito, comprometendo o trabalho e contexto nas quais as imagens estão vinculadas, principalmente em relação ao fotojornalismo.

“Realidade” é uma palavra subjetiva e que varia de acordo com a formação e convicção de cada um, contudo há de se estabelecer noções dentro do que conhecemos de maneira “convencional”, até como parâmetro de avaliação.

Realidade em fotografia é ainda mais complicado, pois a alteramos ao excluir elementos, usar determinados enquadramentos e composições para comunicar, induzir, uma mensagem (por vezes distinta do contexto nas quais foram registradas). Uma mensagem que muitas vezes passa por nosso credo social ou político. Ou seja: usamos uma imagem fotográfica para passar nossa versão da realidade e assim modificar a forma como as pessoas percebem a própria.

Papo longo, complexo e que passa por muitos fatores, mas sempre válida a reflexão sobre o assunto, que é de fundamental importância.

Foto: Marcello Sokal

Pós-produção e edição

O ponto a se pensar – talvez, já que esse critério cada um estabelece – é o quanto o sucesso da captura depende do uso posterior de presets (que qualquer um baixa e usa) e outras edições que tornam a captura quase irreconhecível com a original.

Porque fotógrafo é uma coisa, editor de imagem é outra. Claro que todo fotógrafo é até certo grau editor (no sentido de aprimorar uma imagem inicial), mas falo em modificações maiores, mais extensas, em termos de cores (completamente distintas das quais observados à olho nu), retirada ou colocação de itens nas cenas capturadas, no momento do disparo.

Cada um é livre e deve optar pela linha que acredita, alguns são mais puristas, outros mais para a vanguarda, conceitual, outros simplesmente mais voltados para o mercado (e que assim que surge um novo modismo segue, sem conseguir estabelecer uma linha que identifique sua produção fotográfica ao longo do tempo, não cria uma “assinatura”), tendo em mente que suas imagens são sua “assinatura”, seu canal de comunicação com o mundo e como esse te percebe.

Alguns preferem “fabricar” sua própria “realidade”, outros são mais fiéis ao que encontraram ou desenvolveram no momento do disparo.

Mas no final das contas quem dá o limite, o veredito, é o mercado. Se existe “limite” esse é imposto pelo segmento no qual se atua.

Resumo da ópera

Em tempos de facilidade de registro, edição e compartilhamento de imagens falar em certos temas nem sempre é fácil, mas necessário, visto a profusão de imagens todos os dias sendo postadas em sites e redes sociais (na faixa de dezenas de milhares, por dia, em todo o mundo). E isso impacta o mercado profissional, forçando os fotógrafos a se reinventarem, se adaptar aos rumos e humores do mercado, do que as pessoas querem (ou são induzidas a querer, por diversos mecanismos altamente elaborados) e nisso a capacidade de ver se torna importante, faz a diferença.

As imagens que compõem esse artigo foram capturadas através de câmera de película fotográfica Leica M6, sem manipulações posteriores à digitalização.

 


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Marcello Sokal

Marcello Sokal colunista do iPhoto Channel. Fotojornalista com 22 anos de experiência e imagens publicadas em livros, revistas, jornais e websites do Brasil e do mundo. Algumas publicações: Jornal O Dia, do RJ, Revista Photos, Revista Mercado Brasil, Revista do Sindipi, Revista Velejar e Meio ambiente, Revista OHMI, Revista Photoworld (editada na Inglaterra), Revista Ecoturismo Brasil, entre diversas outras. Participou de exposições fotográficas coletivas e individuais no RJ,SP, SC, RS e Portugal. Clientes de diversos segmentos atendidos: SEBRAE,AMFRI, UNIVALI, Grupo Acquaplan, Grupo SAED, FG Empreendimentos, entre diversos outros. Autor de registro fotográfico integral para 03 livros de arte. Ministra aulas de fotografia nível básico, intermediário e avançado.

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