A chocante história por trás da foto do “Menino Bruxo”

A dinamarquesa Anja Ringgren Lovén e o pequeno Hope, foram personagens de uma das fotos mais chocantes das últimas décadas feita em fevereiro de 2016. O menino de apenas 2 anos foi acusado de bruxaria pela própria família e abandonado para morrer nas ruas da Nigéria.

Hope estava vagando pelas ruas durante oito meses até ser encontrado por Anja, que recebeu um telefonema de um estranho informando que o menino estava perambulando sozinho numa aldeia no sul da Nigéria e que não conseguiria mais sobreviver muito tempo sozinho.

A dinamarquesa, que estava há alguns meses percorrendo o país resgatando crianças maltratadas ou abandonadas na rua junto com seu marido, de maneira perigosa, rapidamente, se dirigiu ao local. “Costumamos preparar por vários dias as missões de resgate porque, sendo estrangeiros, é muito perigoso aparecer assim de repente num povoado. Às vezes os habitantes locais são um pouco hostis, não gostam de ter pessoas de fora se metendo nos assuntos deles”, contou Anja sobre os riscos da operação para encontrar o menino Hope.

Mesmo não sabendo quem era o homem estranho que os chamara e quais eram suas reais intenções – e considerando sempre a possibilidade de uma emboscada -, Anja e seu marido foram seguindo as orientações do homem que foram passadas pelo telefone. Concordaram que seria prudente se disfarçar para ter alguma segurança daquela operação improvisada. O homem desconhecido sugeriu um plano: “Devíamos dizer que éramos missionários e que tínhamos ido à aldeia para experimentar carne de cão seca”, uma iguaria muito apreciada na região, que um homem lá vendia.

Chegando na aldeia, Anja seguiu o plano à risca. Procuraram o vendedor de carne, apresentaram-se como missionários, fingiram interesse, começaram a conversar, ao mesmo tempo que os olhares de Anja e seu marido sondavam discretamente as ruas em redor. O marido de Anja, David, foi o primeiro a ver o menino: uma criança pequenina, frágil, nua e uma pele vincada pelos ossos. David alertou Anja: “Vira-te lentamente quando ninguém estiver olhando. Vais ver o menino, não muito longe, ao fundo da rua. Não te assustes, mas ele parece estar mesmo muito, muito doente…”, disse o marido.

Anja não esquece o momento em que viu aquele menino. “Fiquei gelada quando o vi. Já andava em missões de salvamento há mais de quatro anos, fizemos mais de 300 operações de resgate desde 2008. Temos muita experiência, sabemos que não podemos mostrar qualquer emoção quando vemos as crianças, porque isso pode comprometer toda a operação. Quando vi o Hope, só queria abraçá-lo, queria chorar, queria fugir dali, eram tantas emoções misturadas… Mas sabia que se mostrasse raiva com a situação ou desilusão ou qualquer outra reação, poderia colocar em risco qualquer tentativa para ajudar aquela criança. Tinha de me concentrar. E manter o controle”, disse Anja Ringgren.

Um ano depois de ser encontrado, Hope ficou completamente recuperado da desnutrição e adaptado à vida ao lado de outras crianças. E Anja recriou a foto tirada do dia em que conheceu o menino, mas agora Hope aparece nutrido, forte, feliz e indo para o seu primeiro dia na escola.

Então, Anja começou a fazer perguntas ao vendedor de carnes que desviassem a atenção do menino, mas ao mesmo tempo que se aproximava dele. Quis saber se faziam vinho de palma (e caminhou um pouco), se havia palmeiras na aldeia (e deu mais uns passos), perguntou onde as podia ver – e foi assim que conseguiu chegar perto da criança.

Sem manifestar qualquer emoção, perguntou ao homem que os acompanhava “quem era o rapaz”. Ele desprezou-o, dizia apenas que tinha fome. “Sim, e parece muito doente. Acha que posso dar-lhe um pouco de água e bolachas?”, questionou Anja, que se sentiu muito mais confiante quando o homem, meio distraído, lhe disse que sim: “Pode dar, sim, ele tem fome”, respondeu.

“Isso deixou-me mais tranquila, porque ele não me pediu para o ignorar, como costuma acontecer, por ser um bruxo.” Anja Lovén encostou então levemente a garrafa com água à boca ressequida do menino e esperou que ele bebesse. O marido de Anja registrou o momento em uma foto que iria rodar e comover o mundo. “Podíamos ver que só teria mais umas horas de vida naquelas condições, mal se segurava nas pernas”. Mas foi então que algo inesperado aconteceu. O menino começou a dançar.

Anja emociona-se ao recordar aqueles instantes. “Ele estava a usar as últimas forças que lhe restavam para dançar. E isso foi a maneira de ele nos dizer ‘olhem para mim, ajudem-me, salvem-me, levem-me daqui’. Ele estava a dançar para que reparássemos nele. E eu não conseguia fazer mais nada a não ser sorrir.” No falso papel de “missionária”, Anja só se recorda de começar a falar em dinamarquês com o menino, mesmo sabendo que ele não entenderia uma palavra do que lhe prometia naquele momento: “Vou levar-te comigo, vais ficar em segurança.” E cumpriu.

Só tinha de ser rápida a agir, porque os habitantes começaram a cercar a equipe e o carro e não havia forma de antecipar as suas reações. Avisou o vendedor que iria levar o menino ao hospital, pediu uma manta para lhe cobrir o corpo ferido e partiram. “Quando peguei nele, o corpo parecia uma pena, que não pesava mais do que três quilos, e até isso era penoso”, recorda Anja. “Cheirava a morte. Tive de resistir para não vomitar.”

A caminho do hospital, a equipe de resgate achou que o menino não iria sobreviver. “Estava muito fraco, mal respirava. E foi quando eu disse: se ele morrer agora, não quero que isso aconteça sem que ele tenha um nome. Vamos chamar-lhe Hope [Esperança]”, conta. Pararam ainda no centro de acolhimento de crianças de Anja e David para lhe dar um banho e só depois seguiram para o hospital com Rose, a enfermeira da equipe que ficou ao lado do menino, todos os dias, durante o mês em que ficou internado.

Hope estava muito fraco, o corpo castigado pela fome e pela sede, devorado por parasitas, e precisou de ser medicado e levar transfusões de sangue para poder recuperar. “Nem conseguíamos perceber que idade tinha. Parecia um bebê, mas percebemos mais tarde que teria três ou quatro anos de idade”, conta Anja. “Foi um milagre ele ter sobrevivido.”

Anja e seu marido, além de Hope, conseguiram resgatar mais 48 crianças, abandonadas nas ruas da Nigéria, acusadas por suas famílias de feitiçaria, uma crença ainda muito enraizada naquela sociedade. Porém, por ano, mais de 10 mil crianças são vítimas dessa terrível superstição. “Há muitas crianças que são enforcadas, queimadas vivas, desmembradas com facas ou machetes… Há meninas que são torturadas, violadas, ficam trancadas sem comida ou bebida durante dias, simplesmente porque alguém, um familiar, os acusou de fazerem bruxaria. Apesar de já existir uma lei que proíbe esta prática, a superstição e a crença mantêm-se. É também um negócio para os chamados feiticeiros que cobram pequenas fortunas para fazer exorcismos”, denuncia Anja.

Anja e seu marido criaram a Fundação para a Educação e Desenvolvimento das Crianças Africanas e têm atualmente um centro de acolhimento de todas as crianças abandonadas nas ruas da Nigéria. “O Hope ajudou a atrair a atenção para este problema que se vive na Nigéria, foi um alerta.” Um alerta que correu o mundo inteiro quando a fotografia que registou aquele momento em que Anja deu água ao menino na rua foi publicada nas redes sociais – em apenas dois dias após a divulgação da história do pequeno Hope, a fundação recebeu cerca de 140 mil euros em doações e é desse tipo de ajuda que o projeto continua dependendo até hoje para sobreviver.

Certa vez, Mahatma Gandhi disse a seguinte frase: “Você nunca sabe que resultados virão da sua ação. Mas se você não fizer nada, não existirão resultados”.

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